EUA estudam sinais da Coreia do Norte após viagem de Clinton

Após ex-presidente conseguir libertar jornalistas, funcionários calculam se postura de Pyongyang mudou

The New York Times,

06 de agosto de 2009 | 11h10

Ao lado de Clinton, Gore abraça Laura no aeroporto. Foto: AP

 

WASHINGTON - Um dia depois de o ex-presidente dos EUA Bill Clinton negociar a libertação das duas jornalistas que estavam presas na Coreia do Norte desde março, a administração Obama tentou passar uma mensagem enfática para o governo norte-coreano: nada mudou. Enquanto o presidente Barack Obama comemorou o retorno de Euna Lee e Laura Ling ao território americano, ele disse que a "missão humanitária" de Clinton não abrandou a postura dos EUA e de vários outros países em relação ao fim do programa nuclear norte-coreano.

 

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Mas mesmo que o governo de Obama tenha assegurado que não entrará em outra rodada de conversas que não deem resultados com a Coreia do Norte, as autoridades americanas estão calculando se a situação no país asiático mudou no sentido de criar oportunidades para resolver a questão nuclear. Os oficiais também estudam se as impressões trazidas por Clinton e sua comitiva da viagem à Coreia revelam alguma tentativa de expressão de sinal diplomático do líder daquele país, Kim Jong Il.

 

Funcionários do governo de Obama disseram que a Casa Branca não tem planos de mudar sua estratégia de negociação com Pyongyang, que envolve a imposição de sanções e o convite para novas negociações multilaterais apenas se aceitar abandonar seu programa nuclear. "Dissemos à Coreia do Norte que há um caminho para melhorarmos nossas relações. Queremos apenas assegurar que o governo norte-coreano opere de acordo com as regras básicas da comunidade internacional que eles sabem que esperamos", disse Obama em entrevista a um canal de televisão.

 

A mensagem de Obama, repetida pela Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, mostra a determinação da Casa Branca em não deixar Kim se aproveitar da visita de Clinton e pensar que tem crédito com os americanos e outros países. Ainda assim, os acontecimentos das duas últimas semanas mostram que as relações entre Washington e Pyongyang são ricas no campo diplomático, com uma nova administração americana trabalhando para encontrar o tom e a estratégia certos para lidar com o regime norte-coreano.

 

Bastidores

 

A missão do ex-presidente Bill Clinton em Pyongyang foi a mais visível de um americano em quase uma década. Ela ocorreu num momento em que a relação dos EUA com a Coreia do Norte havia se tornado especialmente fria, após um segundo teste nuclear em maio e uma série de lançamentos de mísseis pelo regime de Pyongyang.

 

Ela levou ao fim de uma provação angustiante para as jornalistas Laura Ling, de 32 anos, e Euna Lee, de 36, e lançou Bill Clinton de volta ao cenário global. A mulher de Clinton, a secretária de Estado Hillary Clinton, também esteve profundamente envolvida no caso. Ela propôs o envio de diversas pessoas a Pyongyang - entre elas o ex-vice-presidente Al Gore - para pressionar pela libertação das mulheres antes de Clinton surgir como a escolha preferida dos norte-coreanos, segundo ligadas às conversações.

 

Há cerca de dez dias, segundo as fontes, Gore telefonou para Clinton e lhe pediu que fizesse a viagem. Clinton acedeu desde que o governo de Barack Obama não fizesse objeções. Numa entrevista concedida para a NBC News em Nairóbi, Quênia, Hillary disse que apelo final para Clinton viera da Casa Branca. "A Casa Branca entrou em contato com meu marido, para perguntar se estava disposto a fazer isso."

 

O quadro instigante, de um ex-presidente atuando numa crise diplomática enquanto sua mulher embarcava num giro pela África no seu papel de chefe da diplomacia dos EUA, ressaltou o papel único e duradouro dos Clintons, mesmo na era Obama. Hillary disse que o caso das americanas presas fora tratado em separado da disputa dos EUA com a Coreia do Norte sobre o programa nuclear norte-coreano. O futuro da relação dos EUA com a Coreia do Norte, prosseguiu, depende "realmente deles." O envio de seu marido na missão foi mantido em segredo e surgiu após semanas de conversas de bastidor entre Washington e Pyongyang por meio de sua missão na ONU.

 

A Coreia do Norte indicou seu desejo de ter Clinton como enviado especial em conversas com Laura e Euna, que repassaram a mensagem a suas famílias em meados de julho. A mensagem foi passada a Gore, que contactou a Casa Branca. E esta tratou, então, de analisar se uma missão desse tipo poderia ser bem-sucedida. Quando presidente, Clinton havia enviado a Kim Jong-il uma carta de condolências pela morte de seu pai, Kim Il-sung, conforme relatou um ex-funcionário do governo. Segundo ele, a libertação das jornalistas foi um "gesto humanitário recíproco" para Kim.

 

Funcionários do governo disseram que Clinton foi à Coreia do Norte na condição de cidadão privado, não levou uma mensagem de Obama para Kim e teve autorização para negociar apenas a libertação das mulheres. Mesmo assim, a Coreia do Norte, percebendo claramente uma oportunidade de propaganda em casa e no exterior, recebeu Clinton com a pompa de um chefe de Estado. Entre os que receberam Clinton estava Kim Kye-gwan, principal negociador nuclear do país.

 

Dada a estatura de Clinton e de seu antigo interesse na questão nuclear norte-coreana, alguns especialistas consideram provável que suas discussões na Coreia do Norte tenham ido muito além da libertação de Laura e Euna. "Seria algo entre surpreendente e chocante se não ocorreu uma discussão substancial entre Clinton e Kim Jong-il", disse Robert L. Gallucci, que negociou com a Coreia do Norte no governo Clinton.

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