EUA foram os que mais perderam com Bush, diz analista

América Latina e União Europeia se fortaleceram com atenção dos EUA para o Oriente Médio, afirma professora

Luiz Raatz, estadao.com.br

19 de janeiro de 2009 | 15h34

Antes de assumir a presidência dos EUA, em 2001, George W. Bush prometia uma política externa humilde. Mas em oito anos, o republicano protagonizou mudanças profundas no cenário internacional. Ele entrega o cargo ao democrata Barack Obama após o maior atentado terrorista sofrido pelo país, duas guerras - no Iraque e no Afeganistão - e com a credibilidade abalada no mundo. Para a professora de relações Internacionais da Unesp, Cristina Pecequilo, os EUA foram quem mais perdeu com a era Bush. "Os maiores legados de Bush são a crise na economia e na credibilidade internacional", diz. Ainda de acordo com a professora, a China, os países latino-americanos, e a União Europeia se fortaleceram após os anos Bush.   Veja também: Contas no vermelho são parte da herança maldita   De saída, Bush telefona para se despedir de líderes mundiais Presidente Bush deixará pior legado desde a Grande Depressão Dez lições de Bush para Obama  TV Estadão: Especialista analisa o fim da Era Bush Confira lista de 'bushismos' ditos nos últimos oito anos   De acordo com a professora, a America Latina foi uma das regiões que mais se fortaleceu por causa da atenção dedicada por Bush ao Oriente Médio. " Ele manteve um bom relacionamento bilateral com o Brasil, mas negociações comerciais foram deixadas de lado. A América do Sul se voltou para ela mesma", constata. Segundo a analista, Bush também deixou um legado negativo para O Oriente Médio. "O processo de paz entre israelenses e palestinos foi desestruturado. Os EUA funcionavam como um estabilizador na região, mas isto foi prejudicado pelas duas guerras, no Afeganistão e no Iraque",diz.   Bush assumiu o cargo em janeiro de 2001, após uma eleição controversa disputada contra o democrata Al Gore. Seu primeiro semestre de governo foi discreto. O primeiro desafio veio após os atentados terroristas de 11 de setembro , quando terroristas jogaram três aviões contra Nova York e Washington e mataram quase 3 mil pessoas. E com o maior ataque estrangeiro em solo americano desde Pearl Harbor, na Segunda Guerra Mundial, Bush uniu o país e ganhou um apoio quase irrestrito. "Os atentados foram a virada. Por conta daquelas divergências da eleição, o governo estava desacreditado. Depois do 11 de setembro, os EUA como um todo acabaram apoiando o governo", analisa a professora da Unesp.   Em outubro de 2001, o presidente ordenou o bombardeio do Afeganistão e destituiu o Taleban do poder. Ali, o republicano lançou as bases de sua política externa, que ficou conhecida como doutrina Bush. Esta estratégia se baseava basicamente em dois princípios: o lançamento de ataques preventivos a inimigos potencialmente perigosos e a deposição de governos antidemocráticos. Pouco depois, no começo de 2002, Bush começou publicamente a defender a deposição do presidente iraquiano, Saddam Hussein, e a ameaçar o Iraque, sob a justificativa de que o regime tinha vínculos com a Al-Qaeda e desenvolvia armas de destruição em massa. Ambas afirmações provaram-se falsas com o passar dos anos.   Cristina Pecequilo nota que a doutrina Bush saía da linha traçada nos oito anos do governo Clinton. "Bush impôs uma agenda que desvia do legado tradicional americano. Os EUA se isolaram e passaram a ser vistos como uma potência hegemônica agressiva, marcada pelo desrespeito aos direitos humanos e pelo unilateralismo", afirma. Após um impasse diplomático na ONU, e sob a oposição de França e Alemanha, os principais países da União Europeia, Bush invadiu o Iraque em março de 2003, sem autorização do Conselho de Segurança. Para a professora da Unesp, Bush retirou a credibilidade das Nações Unidas por conta da guerra do Iraque. "Foi um governo de baixa do multilateralismo. As negociações foram substituídas por uma postura agressiva", argumenta.   Saddam foi deposto e em menos de dois meses as tropas americanas tomaram Bagdá. Começou então uma sangrenta luta entre insurgentes e tropas americanas, britânicas e de outros países que formaram a 'Coalizão dos bem-dispostos', nome dado por Bush a aliança entre EUA, Reino Unido, Espanha, Itália, Austrália e algumas nações do leste europeu.   Em cinco anos de guerra, 90 mil civis morreram e 4 mil soldados americanos foram mortos em emboscadas. Um aumento das tropas no país em 2007, aliado a um acordo político entre tribos sunitas e xiitas diminuiu drasticamente a violência sectária. Após o 11 de setembro, uma série de atentados terrorista atribuídos à terroristas ligados à Al-Qaeda, vitimaram cidadãos de países aliados de Bush. Em outubro de 2002, 202 pessoas, 88 australianos, morreram em uma discoteca em Bali, na Indonésia. Dois anos depois, em 11 de março, uma série de explosões no metrô de Madri 191 pessoas. Outro atentado, este no metrô de Londres, em 2005, deixou 52 vítimas fatais.   Conforme a análise de Pecequilo, no entanto, não é possível dizer que houve uma escalada do terrorismo durante a gestão Bush. "É complicado dizer se melhorou ou piorou. O que ele fez com as guerras foi passar sensação de segurança aos americanos. Mas sempre vai haver um grupo insatisfeito fazendo uso da violência", conclui.

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