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'EUA se envolveram numa guerra civil no Afeganistão'

Oito anos após o 11 de Setembro, missão afegã tornou-se ‘escolha’ de Washington, diz especialista americano

Roberto Simon, O Estado de S. Paulo

12 de setembro de 2009 | 22h57

Ao contrário do que diz o presidente Barack Obama, a missão no Afeganistão não é uma "guerra por necessidade". A operação, rebate Richard Haass, presidente do Council on Foreign Relations - um dos mais influentes think-tanks (centros de pesquisa) dos EUA -, "é agora uma guerra por escolha". Como no Vietnã e na Bósnia, os EUA não combatem desta vez uma ameaça a seus interesses vitais. "E é preciso entender que estar na guerra civil afegã é uma opção", disse ao Estado. Funcionário dos governos George Bush pai e filho, Haass participou das duas guerras do Iraque, experiência que narra em seu novo livro, War of Necessity, War of Choice (Guerra por necessidade, guerra por escolha). Segundo ele, a primeira, de 1991, era incontornável. A segunda, de 2003, foi uma escolha - a qual motivou sua renúncia do governo Bush, meses após a invasão.

 

O sr. afirma que, após o 11/9, a guerra do Afeganistão era necessária, mas hoje ela se tornou uma escolha. Por quê?

Em 2001, havia uma guerra por necessidade: os EUA tinham de remover o governo Taleban por causa do apoio que o grupo deu aos ataques e à Al-Qaeda. Era preciso evitar novos atentados e, por isso, a invasão foi um ato de autodefesa da parte dos EUA.

 

No entanto, hoje no Afeganistão há um governo aliado e, mesmo com o Taleban ganhando terreno, não acredito que militantes estejam prestes a controlar o país. Além disso, diferentemente da situação pós-11/9, hoje temos uma série de opções, tanto no campo militar quanto no diplomático, para lidar com as ameaças no Afeganistão. Assim, o que fazemos no país é uma questão de escolha e não de necessidade.

 

Houve algum divisor de águas nessa transição?

Eu diria que o divisor fundamental foi a queda do Taleban - portanto, entre o fim de 2001 e o começo de 2002. A novidade agora é a decisão de Obama de enviar mais 21 mil soldados ao país, mirando não apenas na Al-Qaeda, mas o Taleban. Trata-se de um novo marco.

 

Então o sr. acredita que os EUA envolveram-se, novamente, numa guerra civil.

Sim, nós nos tornamos parte da guerra civil afegã e isso é uma evolução crucial.

 

O sr. defendeu o bombardeio com aviões não-tripulados de bases de militantes dentro do território paquistanês. Isso realmente reduz a influência da Al-Qaeda e do Taleban? Ou apenas aumenta o antiamericanismo na região?

A resposta é "ambos". Quando membros da Al-Qaeda ou do Taleban são assassinados, esses grupos de fato se enfraquecem. Há algumas semanas um ataque matou (o líder do Taleban paquistanês, Baitullah) Mehsud. Isso é bom, militantes sabem que são vulneráveis. Ao mesmo tempo, quando essas ações envolvem a morte de civis, obviamente aliena-se a população local. Por isso, é fundamental ser seletivo.

 

Obama claramente desmantelou a chamada "guerra ao terror" formulada por Bush. Mas, em seu lugar, há uma estratégia coerente na luta contra o terrorismo?

Acredito que não. Hoje temos elementos esparsos: ataques contra membros da Al-Qaeda e de outros grupos no Afeganistão e Paquistão, um grande investimento em inteligência e segurança interna, entre várias medidas. Existe um conjunto de políticas contra a ameaça. Como ficou claro no discurso de Obama no Cairo (em junho), há uma tentativa de desencorajar muçulmanos de se tornar radicais.

 

O que fez o novo governo afastar-se da "guerra ao terror" - corretamente, na minha opinião - é o fato de a maior parte desse esforço não envolver instrumentos militares, como concebia o governo Bush. Muitas vezes o mais interessante não é lutar contra terroristas, mas dissuadir pessoas de apelar ao terrorismo. Isso envolve coisas como educação e oportunidades econômicas. Não é uma guerra, mas uma competição de ideias.

 

O governo Bush tinha um plano muito claro - alguns diriam simplista - sobre o que os EUA deveriam fazer no Oriente Médio. Existe algum princípio norteador da política de Obama para a região? Pode haver uma "doutrina Obama"?

Acho que não. E isso em parte é bom, pois não é viável ter um único princípio. Eu não concordava com a ideia de que a promoção da democracia era a resposta correta à questão do Oriente Médio. Esse raciocínio trouxe sérios problemas para os EUA. Atualmente, há uma política para o Irã, outra para o Iraque, outra ainda para a questão palestino-israelense e assim por diante. Não temos uma única visão e acho que isso é um reflexo da realidade.

 

O sr. disse que Obama é um "realista" e, consequentemente, a promoção da democracia no mundo não é mais uma prioridade dos EUA.

Com Obama, a democracia perdeu seu caráter central na política externa americana. Nesse sentido, Obama é semelhante a George H. Bush. A ênfase novamente foi colocada na diplomacia e na negociação, admitindo-se uma cooperação mais estreita com países que não são democracias, como China e Rússia.

 

Imagino que o sr. já tenha respondido essa questão milhares de vezes, mas, se não concordava com a guerra do Iraque, por que não deixou o governo Bush filho antes da invasão?

Não me demiti porque, apesar de discordar, compreendia a lógica da decisão de ir à guerra. Como muitos, pensava que iraquianos detinham armas químicas e biológicas à época. Minha oposição à guerra foi silenciada pois acreditava nisso e, obviamente, estava errado. Se soubesse em 2002 o que sabemos hoje, teria deixado o governo.

 

E o que, ao final, o fez renunciar?

Não foi apenas um ponto, mas um conjunto de coisas. Discordava da política adotada por Bush em relação ao Iraque, mas também com o que estava sendo feito na questão palestino-israelense, no Irã, em relação à política climática, a respeito do Tribunal Penal Internacional (TPI). Portanto, em praticamente todos os assuntos relevantes da agenda externa do governo.

 

Como o sr. acredita que a decisão de invadir o Iraque entrará para a história? Como ela será lembrada?

Ainda que a dimensão dessa resposta dependa de como o Iraque estará dentro de 5, 20 ou 50 anos, acredito que a história julgará de maneira muito crítica a decisão de ir à guerra e o modo como ela foi conduzida.

 

Com Obama, pode haver alguma mudança na política dos EUA para a América Latina?

Uma mudança creio que não. A importância do Hemisfério Ocidental continuará centrada na economia. Nesse sentido, o desenvolvimento de relações com países-chave, como México e Brasil, é fundamental. Há também uma certa preocupação com os rumos tomados pela Venezuela. Mas não creio em uma mudança fundamental.

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