Geórgia assina acordo de paz; Ocidente critica Rússia

Os EUA exigiram na sexta-feira,depois de a Geórgia ter assinado um acordo de cessar-fogo, queos soldados russos coloquem fim imediatamente à ocupação deterritórios georgianos. Em Tbilisi, ao lado do presidente da Geórgia, MikheilSaakashvili, a secretária de Estado norte-americana,Condoleezza Rice, lembrou a invasão soviética daTchecoslováquia, 40 anos atrás, para impedir a realização dereformas liberalizantes: "As forças russas precisam deixar aGeórgia de uma vez por todas. Não estamos mais em 1968". Saakashvili disse, após conversar durante cinco horas comRice, que havia assinado o pacto de trégua negociado pelaFrança em nome da União Européia (UE). Enquanto os dois se reuniam, um correspondente da Reutersviu uma coluna de 17 veículos blindados de transporte russoslocomovendo-se em uma estrada a uma distância de 55 quilômetrosda capital georgiana, o ponto mais distante da fronteira queessas forças atingiram até agora. Não se sabe com exatidãoainda qual o motivo da incursão. Saakashvili, em um pronunciamento acalorado, descreveu osrussos como "bárbaros do século 21" e culpou o Ocidente pordetonar a crise ao não reagir de maneira firme às manobrasmilitares realizadas anteriormente pela Rússia e ao nãopermitir, com a rapidez necessária, o ingresso da Geórgia naOrganização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). "Quem convidou os problemas para entrarem aqui?",perguntou, ao lado de várias bandeiras da Geórgia e dos EUA."Não apenas as pessoas que fizeram isso, mas as que permitiramque isso ocorresse". A antiga crise em torno da região georgiana separatista daOssétia do Sul explodiu na quinta-feira passada quando aGeórgia enviou soldados para lá a fim de tentar retomar ocontrole sobre esse território, pró-Rússia. O governo russoreagiu lançando uma imensa contra-ofensiva. Os russos mobilizaram navios, aviões, tanques e soldadoscontra os georgianos, realizando a maior operação fora de suasfronteiras desde a queda, em 1991, da União Soviética. Asforças da Rússia continuam a ocupar parte da Geórgia, apesar denão ocorrerem mais combates. Na sexta-feira, multiplicavam-se os sinais do crescenteisolamento russo. Seu maior parceiro comercial, a Alemanha,considerou que a Rússia exagerou ao ingressar demais naGeórgia, e a vizinha Polônia selou um pacto com os EUA a fim deque sejam instalados ali seções de um escudo antimíssil. O presidente russo, Dmitry Medvedev, continuou adotando umapostura de desafio após encontrar-se com a chanceler alemã,Angela Merkel, na cidade de Sochi, localizada à beira do marMorto e a algumas centenas de quilômetros da zona de conflito. Segundo Medvedev, a Rússia responderá da mesma forma comofez na Geórgia caso suas forças de paz sejam atacadasnovamente. E o presidente manifestou dúvidas sobre apossibilidade de as regiões rebeldes que se encontram no centrodo atual embate regressarem algum dia ao domínio georgiano. Medvedev ainda criticou o acordo americano-polonês,considerando-o uma ameaça à Rússia. "A instalação de forçasantimíssil tem como alvo a Federação Russa", afirmou, naentrevista coletiva realizada ao lado de Merkel. "Portanto, quaisquer contos de fada sobre dissuadir a açãode Estados inamistosos com a ajuda desse sistema antimíssil nãofuncionam mais." Já o presidente norte-americano, George W. Bush, disse quea decisão da Rússia de enviar soldados para a Geórgia haviamanchado a credibilidade do país no cenário internacional. "Medidas violentas e intimidadoras não são formasaceitáveis de fazer política internacional no século 21",afirmou em Washington, antes de partir para um período dedescanso no Texas. Merkel também conclamou o governo russo a retirar seussoldados da região central da Geórgia e a implantar o acordo depaz elaborado com a ajuda da França. "Desejamos realmente que o plano de seis pontos sejaimplementado o quanto antes, de forma que os soldados russosnão fiquem mais na Geórgia, fora da Abkházia e da Ossétia doSul", afirmou a chanceler, naquela mesma entrevista coletiva. As pressões vindas de Berlim possuem uma carga especialporque a Rússia costuma ver a Alemanha como um parceiroocidental mais simpático do que seus antigos inimigos da GuerraFria, entre os quais a Grã-Bretanha e os EUA. O conflito provocou uma onda de nervosismo nos mercados depetróleo porque um importante oleoduto atravessa o territóriogeorgiano. E também deixou apreensivo o Ocidente, para quem oconflito poderia ampliar-se facilmente naquela volátil região. SILÊNCIO DOS ALIADOS Mesmo os países antes pertencentes à União Soviética,aliados tradicionais da Rússia, mantiveram-se em sua maioriasilentes a respeito da questão. Muitos deles mostram-seincomodados com o fato de os russos haverem ingressadomilitarmente em uma das ex-Repúblicas Soviéticas. A Rússia diz que suas ações justificam-se plenamente emvista da "agressão" da Geórgia e do "genocídio" perpetrado como ataque da semana passada contra a Ossétia do Sul. Muitos dosmoradores dessa região portam passaportes russos. O país argumenta que seus soldados precisam continuar naGeórgia a fim de garantir a estabilidade da região e evitarnovos conflitos. As forças de infantaria da Rússia estãoestacionadas, em sua maioria, na área da cidade de Gori, 70quilômetros a oeste da capital georgiana. Na sexta-feira, os dois lados trocaram acusações sobreabusos cometidos na zona de guerra. A Geórgia atribuiu a umgrupo de defesa dos direitos humanos a informação de que aRússia havia usado bombas de fragmentação contra civis -- algonegado pelos russos. Já a Rússia acusou os soldados georgianosde plantar minas em áreas civis ao baterem em retirada. Em Moscou, o Estado-Maior russo afirmou em uma de suasnotas diárias que nenhum tiro havia sido disparado na regiãonas últimas 24 horas. A Organização das Nações Unidas (ONU) mostrou-se preocupadacom a falta de controle nas áreas atingidas pelo conflito.Testemunhas presentes ali contaram ter visto milicianos daOssétia atacando vilarejos e roubando carros. Refugiados falaram sobre a existência de uma terra sem leique se estende de Gori a Tskhinvali, a capital destruída daOssétia do Sul tomada pelas forças russas depois de intensoscombates. "Muitas pessoas foram queimadas vivas dentro de suascasas", disse uma georgiana idosa em Gori, enquanto empurravaum carrinho cheio de sacos. Soldados russos estacionados nas proximidades daquelacidade -- alguns descansando ao Sol do meio-dia, outrosdirigindo tanques e veículos blindados -- pareciam entediadosna sexta-feira e negavam os relatos sobre saques. "Somos do Exército regular", disse Vita, um soldado, antesde enxugar o suor da testa com a manga de seu uniformecamuflado. "Não há violência ou saques. Tudo está calmo". A Rússia diz que 1.600 civis morreram quando a Geórgiaatacou a Ossétia do Sul, apesar de esse dado não ter sidoconfirmado por fontes independentes. O Estado-Maior russo afirmou haver perdido 74 soldados noconfronto, que deixou também outros 171 feridos e 19desaparecidos. Ao menos quatro aviões de guerra foramderrubados. A Geórgia disse ter sofrido 175 baixas e que centenas deseus soldados ficaram feridos. Esses dados não incluem aOssétia do Sul. (Reportagem adicional de James Kilner, em Igoeti; MargaritaAntidze e Matt Robinson, em Tbilisi, e Richard Cowan, emWashington)

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.