Geórgia e Rússia trocam acusações sobre trégua

A Geórgia acusou a Rússia naquarta-feira de violar o frágil cessar-fogo anunciado após seisdias de conflito, uma alegação rebatida com vigor pelo governorusso. Em uma atmosfera marcada por uma troca constante deacusações, o presidente georgiano, Mikheil Saakashvili, disseque tanques russos haviam invadido a cidade de Gori e avançavamrumo à capital do país, Tbilisi. Mais tarde, porém, umavice-ministra corrigiu essas afirmações. Segundo o governo russo, o governo georgiano mentia. "Nãohá soldados ou veículos blindados da Rússia locomovendo-se rumoa Tbilisi," disse à Reuters o coronel-general AnatolyNogovitsyn, vice-chefe do Estado-Maior da Rússia. Testemunhas contaram que soldados russos haviam montado aomenos dois postos de controle a vários quilômetros de Gori, e aRússia afirmou mais tarde ter assumido o controle sobre umdepósito de munição georgiano abandonado e situado pertodaquela cidade, famosa por ser o local de nascimento de JosefStalin. O poderio militar russo, muito superior ao georgiano,humilhou o país vizinho, que, na quinta-feira, lançou umatentativa mal sucedida de retomar o controle sobre a regiãopró-Rússia da Ossétia do Sul, provocando uma gigantescaretaliação. Em Bruxelas, a União Européia (UE) deu apoio ao envio demonitores de paz para a Ossétia do Sul a fim de supervisionarum cessar-fogo mediado pela França. O bloco também acertouintensificar o envio de ajuda humanitária. "Estamos determinados a entrar em ação naquela área", disseo ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner,depois de participar de um encontro de emergência convocadopara debater os esforços de mediação do país dele, atualpresidente da UE. Um porta-voz da Organização do Tratado do Atlântico Norte(Otan) disse que os EUA haviam convocado uma reunião dechanceleres dos países-membros da entidade a fim de falar sobrea crise na Geórgia. Ao mesmo tempo, as potências ocidentais,divididas, tentavam chegar a um acordo sobre como responder àcabal demonstração de força da Rússia. Os EUA --aliado fiel da Geórgia-- e a Grã-Bretanhadefenderam Saakashvili e criticaram a ação russa, consideradadesproporcional. No entanto, a França, a Alemanha e a Itália, que mantêmlaços políticos mais próximos e relações comerciais maisintensas com a Rússia, tomam cuidado para não ficar do lado deninguém, pressionando, ao invés disso, pelo fim da violência. Bandeiras foram hasteadas a meio mastro enquanto os russose os georgianos velavam seus mortos. Os EUA disseram dispor de relatos confiáveis sobre aocorrência ainda de atos violentos na Ossétia do Sul econclamaram a Rússia a impedir "forças irregulares" de atacaremcivis. "Temos relatos dignos de crédito dando conta de quevilarejos estão sendo queimados e de que assassinatos estãoocorrendo", afirmou o enviado dos EUA na região, Matthew Bryza. Saakashvili, dando declarações cada vez mais acaloradas emuma enxurrada de entrevistas concedidas a canais de TV delíngua inglesa, acusou a Rússia de cometer "atrocidades" naOssétia do Sul. "Os tanques russos estão entrando em vilarejos habitadospor georgianos e estão expulsando as pessoas de suas casas,estão levando as pessoas para campos de concentração montadosnesses vilarejos e estão separando os homens das mulheres",afirmou ao canal norte-americano CBS. A informação não pôde ser verificada por fontesindependentes. A vice-ministra georgiana do Interior, Ekaterine Zguladze,afirmou mais tarde, em uma entrevista coletiva: "Eu gostaria deacalmar todo mundo. Os militares russos não estão avançandopara nossa capital." Dentro e nas cercanias da capital da Ossétia do Sul,Tskhinvali, devastada durante o ataque georgiano, podia-seainda ouvir o disparo ocasional de armas de pequeno calibre.Mas não ocorreram outros grandes incidentes. "A situação agora é de um pós-guerra", afirmou IrinaGagloyeva, porta-voz do governo da Ossétia do Sul. "Estamos nosaproveitando dessa trégua para enterrar novamente os quemorreram durante a agressão georgiana." "Muitos foram enterrados às pressas no local em que tinhammorrido --em canteiros ou em jardins. Ontem, tiramos 18 corposem decomposição de debaixo de destroços em Tskhinvali. Hoje,encontramos mais quatro." A GEÓRGIA VAI PERDER SUAS REGIÕES REBELDES? Analistas disseram que a tentativa mal sucedida da Geórgiade retomar à força, na semana passada, o controle sobre aOssétia do Sul diminuía em muito as chances de que o territórioseparatista regresse, junto com outra área rebelde, a Abkházia,para o domínio georgiano. Segundo a Rússia, 1.600 civis foram mortos quando a Geórgiaatacou a Ossétia do Sul, apesar de essa cifra não ter sidoconfirmada por fontes independentes. O Estado-Maior da Rússiadisse que 74 soldados russos morreram nos combates, os quaisdeixaram outros 171 feridos e 19 desaparecidos. O governo georgiano afirmou que, de seu lado, 175 pessoasmorreram e centenas ficaram feridas. Esse dado não inclui aOssétia do Sul. A Rússia anunciou o envio de um pacote emergencial de ajudapara a região separatista. O ministro russo das Finanças,Alexei Kudrin, prometeu 10 bilhões de rublos (414 milhões dedólares) para reconstruir a Ossétia do Sul. O plano de paz mediado pela UE poderia fornecer a base paraque uma resolução do Conselho de Segurança da ONU coloque umfim definitivo ao conflito. Segundo analistas, porém, a Geórgia pode ver-se obrigada arealizar concessões dolorosas, já que foi derrotada no campo debatalha e forçada a ceder terreno tanto na Ossétia do Sulquanto na Abkházia. A versão atual do plano de paz menciona o respeito às"soberania e independência" da Geórgia, mas não faz referênciaa sua "integridade territorial" --permitindo possivelmente umadiscussão sobre o status dos territórios separatistas. Na quarta-feira, a Abkházia disse que suas forças haviamexpulsado os soldados georgianos do desfiladeiro de Kodori, nafronteira do território com o restante da Geórgia. A manobra significa um duro golpe para o governo georgiano,já que o local era a única parte significativa da Abkháziaainda sob controle dele. O Ocidente deu sinais de que convocaria uma força de pazmultinacional para substituir a força russo-georgiana presentena Ossétia do Sul e na Abkházia. E um novo processo pode seriniciado para resolver as disputas surgidas quando as duasregiões livraram-se do controle georgiano, no começo dos anos90. Tanto a Abkházia quanto a Ossétia do Sul possuem umapopulação que pertence a grupos étnicos diferentes do georgianoe que fala línguas próprias. (Reportagem adicional de Sue Pleming em Washington,Francois Murphy em Paris, Dmitry Solovyov em Vladikavkaz,Margarita Antidze e James Kilner em Tbilisi, e Oleg Shchedrovem Moscou)

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