Gesto de repórter iraquiano é retrato do fim da era Bush

Na cultura árabe, ser chamado de 'cachorro' é um grave insulto e os sapatos são um instrumento de desprezo

Gabriel Pinheiro, do estadao.com.br,

15 de dezembro de 2008 | 15h11

O gesto do jornalista iraquiano que atirou seus sapatos contra George W. Bush durante uma visita oficial do presidente iraquiano ao Iraque no domingo, 14, é um retrato amargo do fim do mandato de um dos chefes de Estado mais impopulares da História americana, avalia a cientista política Cristina Pecequilo, da Unesp. "O gesto representa esse final melancólico, além da falta de credibilidade e legitimidade desse governo", acrescenta.   Veja também: Em visita ao Afeganistão, Bush vê progresso 'indubitável' NYT: EUA 'maquiaram' reconstrução do Iraque No Iraque, Bush diz que guerra continua e jornalista atira sapato Assista ao vídeo da AP com incidente   Veja seqüencia de fotos com a sapatada    Bush tentou minimizar o incidente, dizendo que a atitude do repórter (que também o chamou de "cachorro") "não representa um movimento maior no Iraque", mas o protesto já ganhou adeptos - no subúrbio xiita Sadr City, em Bagdá, apoiadores do clérigo radical Muqtada al-Sadr saíram às ruas gritando: "Bush, Bush, ouça bem: dois sapatos em sua cabeça."   Na cultura árabe, ser chamado de "cachorro" é um grave insulto e os sapatos são um instrumento de desprezo: em 2003, os iraquianos atacaram da mesma forma a estátua do ex-ditador Saddam Hussein a sapatadas. Muntazar al-Zaidi, o jornalista que atirou seus sapatos de domingo, foi detido e agora passa por exames para detectar uma possível presença de álcool e drogas.   A reação no Iraque foi dividida, com alguns condenando e outros aplaudindo o ato. Falando com um pequeno grupo de repórteres depois do incidente, Bush afirmou que a imprensa "estava mais preocupada" do que ele. "Foi apenas um momento bizarro", avaliou. O governo iraquiano condenou o protesto e pediu que a emissora em que repórter trabalha, a Al-Baghdadia, peça desculpas publicamente.   O irmão de Ziadi disse que o manifesto do jornalista foi pelo "mau comportamento dos soldados americanos no Iraque". Udai al-Ziadi afirmou que seu irmão "não cometeu nenhum crime" e que o gesto não deve ser condenado.   Udai al-Ziadi afirmou ainda que ele e sua família deixaram a casa na qual moravam após o incidente por temor de que o Exército dos EUA os detivesse. Além disso, descreveu seu irmão como uma "pessoa tranqüila, que nunca teve problemas com os demais."   Rejeição   Em novembro, uma pesquisa divulgada pela rede CNN mostrou que Bush está deixando a Casa Branca como o presidente mais impopular desde que as sondagens de aprovação de governo surgiram, há mais de seis décadas. Segundo a enquete, 76% dos entrevistados pela CNN/Opinion Research Corporation desaprovam a gestão do presidente.   Antes de Bush, o recorde de rejeição era de Harry Truman, cuja gestão era desaprovada por 67% dos americanos em janeiro de 1952, seu último ano na Casa Branca. No começo deste mês, ele admitiu, em entrevista à emissora ABC, que não estava preparado para a guerra - apontada como um dos fatores que mais contribuíram para sua impopularidade - quando assumiu a Presidência, em 2000.   "O maior arrependimento de toda a Presidência deve ser a falha de inteligência no Iraque. Várias pessoas colocaram sua reputação à prova e disseram que as armas de destruição em massa eram a razão para depor Saddam Hussein", revelou Bush, admitindo que o principal argumento que ele sustentou para a invasão do país era falho.   Mas o presidente americano se recusou a especular se entraria na guerra se a inteligência tivesse dito que o Iraque não possuía armas de destruição. "Essa é uma questão interessante. É uma reconstituição que não posso fazer", afirmou Bush, que concluiu a entrevista dizendo que deixará a Presidência com a "cabeça erguida."   Há cerca de 150 mil soldados americanos no Iraque e 32 mil no Afeganistão. Mais de 4.209 americanos morreram no Iraque e cerca de US$ 576 bilhões foram gastos desde o início da invasão, em março de 2003.   Denúncias   Um relatório federal ainda não publicado sobre a reconstrução do Iraque retrata um esforço já fracassado antes mesmo da invasão por conta do planejamento do Pentágono, feito por funcionários hostis à idéia de reconstruir um país estrangeiro, e depois transformado num equívoco de US$ 100 bilhões.   "Lições Difíceis: A Experiência da Reconstrução do Iraque" conclui que quando a reconstrução começou a atrasar, o Pentágono divulgou medidas exageradas de progresso para encobrir os fracassos. Em certo trecho, por exemplo, o ex-secretário de Estado Colin Powell é citado dizendo que nos meses posteriores à invasão de 2003, o Departamento de Defesa "seguia inventando o número de integrantes das forças de segurança do Iraque" - o número aumentava 20 mil por semana.   Entre as conclusões do relato está a de que cinco anos após ter embarcado no maior projeto de reconstrução estrangeira desde o Plano Marshall na Europa após a 2.ª Guerra, Washington não conseguiu aplicar as medidas necessárias para um programa destas dimensões.   Os números relativos à produção industrial e aos serviços básicos revelam que, após todo o dinheiro gasto, o esforço de reconstrução nunca fez muito mais do que restaurar aquilo que foi destruído durante a invasão.   (Com agências internacionais)

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