Gonzales oficializa renúncia e anuncia saída para setembro

Em declarações, secretário de Justiça agradece amizade de Bush e diz ter sido privilégio dirigir departamento

Agências internacionais,

27 de agosto de 2007 | 12h12

O secretário de Justiça dos EUA, Alberto Gonzales, disse nesta segunda-feira, 27, que vai deixar o cargo no dia 17 de setembro, mas não apresentou razões específicas para sua repentina decisão de deixar o governo do presidente George W. Bush. Gonzales foi tratado injustamente por críticos A saída acontece após meses de controvérsia acerca da suposta participação do secretário na demissão de oito procuradores federais americanos. A oposição democrata afirma que a medida foi motivada por razões políticas, já que documentos da administração tornados públicos mostram que as demissões foram articuladas por integrantes do Departamento de Justiça e da Casa Branca.   "Após meses de um tratamento injusto que criou distrações maliciosas no Departamento de Justiça, o juiz Gonzales decidiu pedir sua demissão, e eu aceito a decisão", disse Bush, que está de férias no Texas, após o pronunciamento do secretário. Gonzales era amigo pessoal do presidente e acompanhou praticamente toda a sua carreira política.   Em uma declaração feita no Departamento de Justiça, Gonzales agradeceu a Bush pela amizade e disse que, apesar dos problemas, ele considera ter sido um grande privilégio dirigir o departamento.   "Eu vivi o sonho americano", disse Gonzales, que é filho de trabalhadores imigrantes e o descendente de hispânicos a ocupar o cargo mais alto numa administração americana. "Mesmo meus piores dias como secretário de Justiça foram superiores aos melhores dias do meu pai", afirmou.   Sua saída encerra um mandato marcado por uma contínua controvérsia sobre liberdades civis, pela demissão de promotores dos EUA e por questionamentos sobre sua honestidade em declarações perante o Congresso.   Procuradores   Ao longo dos últimos meses, Gonzales vinha sendo duramente criticado tanto por congressistas de situação quanto de oposição pela demissão dos oito procuradores federais.   Para a oposição, as demissões tiveram motivações políticas, já que parte dos procuradores admitiram publicamente terem sido pressionados para investigar os parlamentares democratas antes da realização de eleições legislativas de novembro do ano passado.   À época, Gonzales - que aprovou pessoalmente as demissões - argumentou perante o Congresso que medida foi levada a cabo por questões de produtividade. Desde o início do escândalo, Bush apoiou a posição do secretário.   Mas a divulgação de milhares de páginas de documentos e trocas de e-mail do Departamento de Justiça revelou a existência de uma articulação entre altos funcionários da pasta e da Casa Branca para a demissão dos procuradores.   Amigos em queda   Com a renúncia, Gonzalez torna-se o quarto amigo pessoal de Bush a abandonar o governo desde novembro do ano passado e o segundo a renunciar neste mês. No início de agosto, Karl Rove, um dos principais conselheiros do presidente, anunciou que deixaria o governo.   Rove, que também estaria envolvido no caso dos procuradores, quase foi obrigado a depor para a comissão do Congresso que investiga questão, mas Bush utilizou um dispositivo legal para impedir que ele testemunhasse.   Outro amigo de Bush, o "arquiteto" da invasão do Iraque Donald Rumsfeld se demitiu um dia depois da derrota republicana nas eleições legislativas de meio de mandato. Paul Wolfowitz deixou a presidência do Banco Mundial em maio por causa de questionamentos éticos.   Substituto   De acordo com uma fonte no Departamento de Justiça, Gonzales será substituído temporariamente pelo procurador Paul Clement, que ficará no cargo até que um novo secretário seja escolhido.   Segundo outra fonte anônima do governo, Gonzales enviou carta de renúncia ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, na última sexta-feira. De acordo com o jornal The New York Times, a decisão de sair foi tomada por Gonzales, e Bush a aceitou a contragosto.   Gonzales já trabalhou com Bush quando este foi governador do Texas, na década de 1990. No primeiro mandato do presidente, foi conselheiro jurídico da Casa Branca. Em fevereiro de 2005, tornou-se o primeiro hispânico a ocupar a secretaria de Justiça.   Filho de camponeses mexicanos e nascido em San Antonio (Texas), o ex-secretário de Justiça americano superou a miséria até alcançar um posto privilegiado como principal assessor jurídico da Casa Branca.   Alvo de críticas   Além da questão dos procuradores, Gonzales também foi criticado por ONGs de direitos civis por escrever, em janeiro de 2002, que parte da Convenção de Genebra para o tratamento de prisioneiros, escrita há meio século, havia ficado "obsoleta" e tinha algumas regras "esquisitas".   Ele também foi criticado pelo programa de espionagem sem ordem judicial, adotado após os atentados de 11 de setembro de 2001. Só em janeiro, numa decisão abrupta, Gonzales finalmente anunciou que o programa estaria sujeito a aprovação judicial.

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