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Jovem que atirou em deputada apresentava sinais de esquizofrenia

Apesar de demonstrar sinais claros de evolução da doença, atirador não encontrou restrições para comprar arma do crime

Denise Chrispim Marin, de O Estado de S. Paulo,

16 de janeiro de 2011 | 18h39

O choque com a tragédia do último dia 8 em Tucson, no Arizona, foi seguido por horror ainda maior nos Estados Unidos: a história de como um rapaz de cabelos encaracolados dedicado ao saxofone e aos estudos e chamado pelos colegas de Harry Porter pôde se transformar no assassino bizarro de seis pessoas. Jared Lee Loughner, de 22 anos, tinha como alvo a deputada democrata Gabrielle Gifford, sua mais recente obsessão. Por trás dessa trajetória estavam os sinais de uma esquizofrenia em evolução e o ambiente sem restrições à venda e ao porte de armas do Arizona.

 

"Definitivamente, Loughner é 100% esquizofrênico", afirmou ao Estado Michael Mahoney, autor do livro "Squizophrenia: The Bearded Lady Disease" (Esquizofrenia: a Doença da Mulher Barbada, em tradução livre). "É preciso proibir urgentemente o fácil acesso a armas. Nossas prisões estão se transformando em uma espécie de depósito de doentes mentais", completou.

 

A defesa de Loughner iniciou na semana passada um minucioso estudo de sua doença como meio de livrá-lo da pena de morte, aplicada no Arizona. A advogada Judy Clarke, líder do caso, pediu também a sua equipe uma pesquisa detalhada do estado psíquico da família de Loughner, inclusive antepassados. Clarke atuou na desafiante defesa dos autores de pelo menos duas outras tragédias nos EUA - Timothy McVeigh, responsável pelo atentado a bomba em Oklahoma (1995), e o "unabomber" Ted Kaczynski.

 

A esquizofrenia é um transtorno psíquico ainda desafiador para a medicina moderna. Entre as várias teorias sobre sua manifestação, Mahoney trabalha com a da ausência de identidade sexual - daí o nome de doença da mulher barbada. A paranoia quase sempre está associada a esse transtorno, limitador da capacidade do indivíduo de dissociar a realidade da ilusão.

 

Loughner é filho único do casal Randy e Amy Totman. Assentador de carpetes e restaurador de carros antigos, Randy é tido como um homem soturno. Amy, gerente de um estacionamento, é vista como mais simpática. Nos últimos anos, o casal notou a mudança de comportamento do filho e temeu suas atitudes. O Pima Community College o suspendeu das aulas, em 2010, até que ele apresentasse um relatório sobre sua saúde mental. Por razão ainda não revelada, a família não tomou a iniciativa de submetê-lo a tratamento.

 

Desde 2006, quando tinha 18 anos, Loughner começou a mudar. Cortou os cachos e sua fascinação por John Coltrane, Miles Davis e Charlie Parker e pelo hip-hop deu lugar ao heavy metal. O saxofone e as aulas na Academia de Jazz do Arizona foram abandonados. Nessa época, foi levado bêbado a uma delegacia, onde a polícia registrou ter ele tomado vodca porque estava aborrecido com uma bronca do pai. Começou a usar maconha, cogumelos e sálvia divinorum, planta com efeitos psicoativos e deixou os antigos amigos. Seu alistamento nas Forças Armadas foi recusado devido ao uso de drogas.

 

O rapaz tornou-se obsessivo com teorias conspiratórias. Para ele, o ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 fora provocado pelo governo americano, o sistema bancário queria escravizar as pessoas e havia censura oficial a livros como "Minha Vida", de Adolf Hitler, e "Peten Pan", de J. M. Barrie. Também demonstrou paranoia em relação à Constituição americana e à gramática inglesa e interesse pela ideia do controle racional dos sonhos. De estudante promissor de matemática, passou a defender que o número 6 pode ser chamado de 18. Por fim, tornou-se agressivo, a ponto de um colega de classe procurar a cadeira mais próxima da porta.

 

Desde 2007, Loughner mostrava-se obcecado com a deputada Gifford. Em 30 de novembro passado, comprou na Sportsman's Warehouse uma pistola semiautomática Glock 19. Há duas semanas, gastou US$ 14 para tomar um táxi até o estacionamento de um supermercado, onde a parlamentar realizava o "Congresso na sua Esquina". Atirou na cabeça dela, matou seis pessoas e feriu outras 13. Em estado ainda crítico, Gifford mostrava até ontem uma "milagrosa" recuperação, segundo seus médicos.

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