Justiça inocenta policiais por morte de negro desarmado em NY

Carro de Sean Bell foi alvejado com mais de 50 tiros ao deixar sua despedida de solteiro em casa noturna

Michael Wilson, The New York Times,

25 de abril de 2008 | 11h08

Três detetives foram considerados inocentes nesta sexta-feira, 25, de todas as acusações sobre o tiroteio que matou o jovem negro Sean Bell, jovem de 23 anos que foi alvejado com mais de 50 tiros no dia do seu casamento enquanto deixava a despedida de solteiro realizada em um clube de strippers no bairro nova-iorquino de Queens, em novembro de 2006. A multidão que acompanhava o julgamento do lado de fora do tribunal criminal protestou contra o veredicto.   Veja também:  Outros casos de violência policial nos EUA   O juiz Arthur Cooperman, responsável pela decisão, disse que muitas das testemunhas da Promotoria, incluindo os amigos de Bell feridos na ação dos policiais, eram simplesmente inacreditáveis. "O testemunho dessas pessoas não faz sentido", ele disse. O veredicto motivou os apoiadores da vítima a protestar durante a audiência, gritos foram ouvidos nos corredores. Os detetives acusados: Gescard F. Isnora, Michael Oliver e Marc Cooper foram escoltados até a saída. Do lado de fora, a multidão se concentrava atrás das barricadas policiais.   O veredicto foi anunciado 17 meses após o crime, cometido no dia 25 de novembro de 2005, quando Bell e seus amigos Joseph Guzman e Trent Benefield tiveram o carro em que estavam alvejado na saída de uma casa de stripper no Queens, horas antes do casamento de Bell.   A decisão foi comunicada para os presentes na corte, incluindo a noiva e os pais de Bell, após sete semanas de julgamento. A audiência foi dirigida pelo juiz Cooperman na Suprema Corte do Estado depois que os acusados desistiram de enfrentar o juri, uma estratégia que alguns advogados afirmam ser arriscada. Porém, ela claramente foi a responsável pelo veredicto. Antes de anunciar a decisão, Cooperman concluiu que "a polícia respondeu com respeito e que cada acusado não era considerado criminoso". "As pessoas não provaram uma dúvida razoável" de que cada acusado tenha atirado sem justificativa, ele afirmou, antes de dizer que os três eram inocentes.   A família de Bell permaneceu em silêncio enquanto o juiz falava. Atrás deles, uma mulher comentou "por que ele não diz apenas 'inocentes'"? Cerca de 30 oficiais da corte fizeram a segurança nos corredores do tribunal.   O comissário de polícia Raymond W. Kelly se recusou a comentar o veredicto, dizendo que os policiais poderiam enfrentar ainda punições do departamento. Ele afirmou, entretanto, que a Procuradoria americana pediu que ele atrasasse ações disciplinares até que o governo decidisse se retiraria ou não as acusações federais contra os oficiais e que a polícia está preparada para fazer qualquer eventual prisão durante os protestos. "Nós estamos preparados, fizemos alguns exercícios apropriados com o pessoal e as unidades em qualquer caso de violência, porém, nós não antecipamos violência", disse Kelly. "Não teremos problemas. Obviamente algumas pessoas estarão desapontadas com o veredicto. Nós entendemos isso".   Durante os 26 dias de julgamento, a Procuradoria tentou mostrar, com mais de 50 testemunhos, de que o tiroteio foi apenas um gesto de susto ou até mesmo provocação de um grupo de policiais desorganizados que começou o seu turno naquela noite esperando deter uma prostituta ou duas, e de que sob a suspeita de que Bell e os amigos tivessem armas, pediram para que eles colocassem as mãos na cabeça. "Pedimos para que a polícia arrisque sua vida para nos proteger", disse o assistente da Promotoria Charles A. Testagrossa durante o encerramento de sua argumentação. "Não para arriscarmos nossas vidas para protegê-los".   A defesa, depois de semanas de análise dos testemunhos e das palavras dos próprios detetives, mostrou que o tiroteio foi o fim de uma tragédia, no final de tudo, um confronto justificado, e que Isnora teve reações sólidas para acreditar que abrir fogo contra o carro de Bell era a única coisa a ser feita.   Muitas testemunhas afirmaram que teriam escutado conversas sobre armas em uma briga entre Bell e um estranho, Fabio Coicou, do lado de fora do clube, discussão que a defesa justificou que aconteceu por conta do estado intoxicado da vítima. Isnora afirmou que ele apresentou seu distintivo, apontou a arma e gritou "polícia, não se mova", enquanto se aproximava do veículo. Testemunhas, a maior parte amigos de Bell, disseram que não ouviram os gritos dos policiais. Os dois colegas que foram feridos no incidente disseram no tribunal que não sabiam que o detetive Isnora era um policial quando ele os abordou com a arma.

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