Kerry acha 'censurável' declaração de premiê turco sobre sionismo

O secretário norte-americano de Estado, John Kerry, criticou na sexta-feira o primeiro-ministro da Turquia por ter comparado o sionismo a um crime contra a humanidade, num incidente que lançou uma sombra na reunião entre os dois países membros da Otan.

ARSHAD MOHAMMED E JONATHON BURCH, Reuters

01 de março de 2013 | 19h51

Kerry, que faz sua primeira viagem a um país islâmico desde que assumiu o cargo, se reuniu com líderes turcos para discutir temas como a guerra civil na vizinha Síria, segurança energética, o programa nuclear iraniano e o combate ao terrorismo.

Mas a declaração feita pelo premiê Tayyip Erdogan nesta semana durante uma reunião da ONU em Viena turvou o ambiente. O governo de Israel, a Casa Branca e o secretário-geral da ONU também recriminaram o pronunciamento.

"Não só discordamos como achamos censurável", disse Kerry em entrevista coletiva ao lado do chanceler turco, Ahmet Davutoglu. O secretário afirmou ter abordado o tema de maneira "muito direta" com Davutoglu, e que pretende fazer o mesmo com Erdogan.

Na quarta-feira, durante a reunião da Aliança de Civilizações da ONU, Erdogan disse que "assim como com o sionismo, o antissemitismo e o fascismo, tornou-se necessário ver a islamofobia como um crime contra a humanidade".

Kerry disse também que Turquia e Israel, sendo dois importantes aliados dos EUA no Oriente Médio, deveriam buscar uma melhora nas suas relações bilaterais, muito abaladas desde 2010, quando militares israelenses mataram nove ativistas turcos em um navio que tentava levar mantimentos a palestinos na Faixa de Gaza.

"Diante dos muitos desafios que a vizinhança enfrenta, é essencial que tanto a Turquia quanto Israel encontrem uma forma de dar passos...para retomar sua histórica cooperação", disse Kerry. "Acho possível, mas obviamente temos de ir além do tipo de retórica que acabamos de ver recentemente."

Em resposta a Kerry, Davutoglu disse que seu país sempre se posicionou contra o antissemitismo, e queixou-se do comportamento israelense. "Se formos falar de atos hostis, então a atitude de Israel e a brutal morte de nove dos nossos cidadãos civis em águas internacionais pode ser chamada de hostil."

"Nenhuma declaração tem um preço tão alto quanto o sangue de uma pessoa", afirmou. "Se Israel quer ouvir declarações positivas da Turquia, precisa reconsiderar sua atitude com relação a nós e com relação à Cisjordânia."

Já na noite de sexta-feira (hora da Turquia), Kerry chegou atrasado para uma reunião com Erdogan, que aparentemente não gostou, comentando que restava pouco tempo na agenda, segundo um repórter dos EUA que acompanhou a sessão de fotos no começo do encontro.

Kerry pediu desculpas, dizendo que havia tido uma reunião boa com Davutoglu, segundo esse repórter.

Erdogan, falando por meio de um intérprete, respondeu então que os dois "devem ter falado sobre tudo, então não resta nada para conversarmos". Em tom de brincadeira, Kerry afirmou: "Precisamos de você para assinar tudo".

(Reportagem adicional de Gulsen Solaker)

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