Obama discursa ao lado de Reid
Obama discursa ao lado de Reid

Livro sobre campanha de 2008 constrange aliado de Obama

Líder democrata no Senado desculpa-se por comentários racistas; revelações abalam também republicanos

Patrícia Campos Mello, correspondente do Estado em Washington,

12 de janeiro de 2010 | 07h54

Desde que os primeiros trechos começaram a vazar para a imprensa, na sexta-feira, o livro Game Change vem espalhando a discórdia pelos corredores do poder em Washington. As revelações bombásticas do livro sobre os bastidores da campanha de 2008 já puseram pelo menos um político na fogueira.

O líder democrata no Senado, Harry Reid, teve de telefonar para o presidente Obama para pedir desculpas. Ele admitiu ter dito aos autores que o país estava pronto para apoiar um candidato negro, especialmente um como Obama: "Um afro-americano de pele mais clara", que não "fala como preto, a não ser quando quer".

Michael Steele, o diretor do Comitê Nacional Republicano, que é negro, disse que Reid deveria renunciar. O presidente Obama aceitou o pedido de desculpas de Reid, que voltou a se "imolar" em público ontem.

Quase todo mundo sai chamuscado por revelações nada lisonjeiras do livro dos jornalistas Mark Halperin, da revista Time, e John Heilemann, da revista New York.

 

Segundo o livro, Bill Clinton irritou o senador Ted Kennedy - morto no ano passado - ao insistir no pedido de apoio a Hillary Clinton, que disputava a prévia do Partido Democrata com Obama.

 

 

Clinton teria dito que Obama, "até alguns anos atrás, era o cara que buscava cafezinho para a gente". Hillary aparece como fria e calculista, tal qual era pintada por seus adversários.

Um ano antes da convenção democrata, Hillary destacou dois dos executivos de sua campanha para começarem a cuidar da "transição" para seu governo, certa de que venceria a eleição.

O livro diz que o "potencial priapismo" de Bill era uma ameaça à campanha de Hillary e, por isso, era tema de teleconferências. O ex-presidente vivia paquerando donas de casa vindas da aula de ioga, em um café em Chappaqua, onde os Clinton vivem. E o ex-presidente vivia para cima e para baixo com seu amigo, o playboy Ron Burkle, cujo avião era conhecido como "Air Fuck One". Um dos rumores era de que Clinton teria um caso com a atriz Gina Gershon, do filme Showgirls.

A certa altura, o comando da campanha de Hillary descobriu que Clinton realmente estava mantendo "um relacionamento estável" com uma mulher e estabeleceu um plano de contingência para lidar com o escândalo, se vazasse para a imprensa.

O livro Game Change e suas revelações bombásticas dominaram os noticiários de TV, jornais e blogosfera no final de semana e ontem.

Quando a reportagem do Estado foi à livraria perto da Casa Branca para comprar o livro, o vendedor disse: "Você e mais o restante de Washington vieram comprar esse livro hoje."

Sarah Palin tampouco sai bem no livro. Segundo os autores, a vice na chapa do candidato republicano John McCain tinha um tique verbal e cismava em chamar Joe Biden de Obiden, um mix entre Obama e Biden. Por isso, no debate entre os candidatos a vice, começou pedindo a Biden: "Posso chamá-lo de Joe?"

Na época, isso pareceu uma estratégia esperta para a candidata parecer mais despojada. Na verdade, era uma tática para evitar uma gafe. No livro, os autores contam que Sarah teve de ser educada sobre todas as questões de política externa e teve aulas sobre a 1ª e a 2ª Guerras e Guerra Fria com os assessores de McCain. De acordo com eles, ela não sabia nem porque existiam duas Coreias. Ontem mesmo, Sarah anunciou que será a próxima comentarista da TV Fox News, de direita.

Elizabeth Edwards é descrita como paranoica e violenta (e não como a heroica vítima de câncer como aparecia na campanha). Em um surto de fúria por causa do caso de seu marido, John Edwards, com Rielle Hunter, Elizabeth rasgou sua própria blusa no meio de um estacionamento, enquanto gritava para John: "Olha para mim!"

A relação entre Joe Biden e Obama era péssima. Segundo o livro, os dois mal se falavam durante a campanha e Biden não podia participar das teleconferências com a cúpula. Depois de Biden ter cometido a gafe de dizer que, em seus primeiros meses de governo, Obama enfrentaria uma crise internacional, Obama teria dito: "Quantas outras idiotices Biden vai conseguir dizer?"

Segundo os autores, Obama era chamado de "Jesus negro" pelos integrantes da campanha. Para escrever o livro, os autores entrevistaram 300 insiders políticos, a maioria em "deep background", ou seja, sob condição de total anonimato. Os autores são acusados de usar muitos rumores no livro.

 

Frases polêmicas do livro:

"Um afro-americano de pele mais clara, que não fala como preto, a não ser quando quer" Harry Reid, senador democrata, sobre Obama

"Até alguns anos atrás, ele era o cara que buscava cafezinho para a gente" Bill Clinton, ex-presidente, sobre Obama

"Quantas outras idiotices Biden vai conseguir dizer?", Obama sobre as gafes de Biden

 

Serviço: "Game Change - Obama and the Clintons, McCain and Palin, and the Race of a Lifetime." John Heilemann e Mark Halperin.  Ed. HarperCollins. Disponível na Amazon

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