Médicos supervisionavam tortura em Guantánamo, diz relatório

Profissionais evitavam que detentos morressem em interrogatórios; participação foi 'violação grosseira da ética'

The New York Times,

07 de abril de 2009 | 16h44

A equipe médica estava profundamente envolvida nos interrogatórios abusivos de suspeitos de terrorismo realizados pela CIA na prisão de Guantánamo, incluindo tortura. A participação foi uma "violação grosseira da ética médica", concluiu um relatório secreto do Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

 

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Baseado nos depoimentos de 14 prisioneiros - membros da Al-Qaeda que foram levados à prisão cubana no final de 2006 -, os investigadores da Cruz Vermelha concluíram que médicos que trabalharam para a CIA acompanharam as técnicas de afogamento em interrogatórios, aparentemente para certificar que os homens não se afogariam. Os médicos também estavam presentes quando os prisioneiros eram confinados em pequenas caixas e durante outros abusos, informa o documento.

 

Auxiliando nessas práticas, que a Cruz Vermelha considera tortura, houve violação da ética médica, mesmo se a intenção dos profissionais fosse evitar que os detidos morressem, acrescenta o relatório. Entretanto, de acordo com o texto, o objetivo principal dos médicos era ajudar os agentes americanos durante os interrogatórios, não proteger os detidos. Segundo os prisioneiros, os profissionais "davam instruções para os oficiais continuarem, ajustarem ou pararem em certos métodos."

 

O informe da Cruz Vermelha foi concluído em 2007 e obtido por Mark Danner, jornalista que muito escreveu sobre tortura, e divulgado na noite de segunda-feira com um artigo redigido pelo repórter para o site do The New York Review of Books. Boa parte de seu conteúdo já havia sido revelada em outro artigo, datado de março, e em um livro lançado em 2008, chamado The Dark Side, de Jane Mayer. Entretanto, as conclusões da Cruz Vermelha sobre a ética médica são novas.

 

Khalid Shaikh Mohammed, idealizador dos atentados de 11 de Setembro, disse aos investigadores que quando foi afogado em um interrogatório, sua pulsação e nível de oxigênio eram monitorados. Em vários ocasiões, segundo ele, os médicos pediram para que os procedimentos fossem interrompidos.

 

O documento não indica se os médicos da CIA eram psicólogos ou especializados em outra área. Outras fontes disseram que os interrogatórios foram auxiliados e planejados por psicólogos. O porta-voz da CIA Mark Mansfield disse que, seguindo as políticas de confidencialidade da Cruz Vermelha, não poderia comentar o relatório.

 

Mansfield afirmou também que o atual presidente americano, Barack Obama, proibiu todos os agentes do governo de usarem técnicas em interrogatórios que não estivessem listadas entre os métodos não coercitivos do manual do Exército. Durante seu governo, o ex-presidente George W. Bush disse várias vezes que os EUA não torturavam, mas não definiu o que era tortura.

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