Mohammed, o homem que quis ser um 'superterrorista'

Cérebro dos atentados de 11/9 tinha planos grandiosos; muitos não saíram do papel, mas outros tiveram sucesso

Efe,

05 de junho de 2008 | 16h07

Khalid Sheikh Mohammed não é um homem com um ódio cego contra os Estados Unidos, pois viveu na Carolina do Norte e estudou em universidades americanas, mas sua rejeição à aliança de Washington com Israel levou-o a idealizar, conforme confessou, um atentado que mudou o mundo. Mohammed, que compareceu nesta quinta-feira, 5, pela primeira vez perante um juiz militar em Guantánamo pelos atentados de 11 de setembro de 2001 contra os EUA, sempre teve planos grandiosos.   Veja também: Após 7 anos, EUA iniciam julgamento de autores do 11/09   Em declaração perante uma junta militar que revisou seu caso no ano passado, disse ter participado de cerca de 30 planos, segundo a transcrição divulgada pelo Pentágono. Muitos nunca saíram do papel, outros fracassaram e alguns tiveram um "sucesso" terrível.   Ele quis sobrevoar o Canal do Panamá, o aeroporto britânico de Heathrow e matar Bill Clinton, o presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, e o papa João Paulo II. Mohammed confessou ter decapitado, em 2002, no Paquistão, "com minha santa mão", disse, o jornalista americano Daniel Pearl, que era judeu.   Ele também se atribuiu a responsabilidade "de A a Z" pelos atentados de 11 de Setembro. Em 2003, já tinha admitido ser um dos organizadores dos ataques em entrevista à rede de televisão "Al Jazira". Esse foi seu grande erro, pois os espiões americanos e paquistaneses aparentemente seguiam os passos do jornalista e encontraram o terrorista.   Mohammed, que então era supostamente o chefe da unidade de propaganda da Al Qaeda, correu o risco de ser preso, pois nunca resistiu à tentação de ser o centro das atenções. Em seu plano original para o 11 de Setembro, ele mesmo seqüestrava um avião, matava todos os passageiros homens, pousava, convocava a imprensa e fazia um discurso sobre a maldade da política americana, segundo a comissão oficial que investigou os atentados.   "Esta perspectiva dá uma idéia de suas ambições verdadeiras. Tratava-se de um teatro, um espetáculo de destruição com KSM (Khalid Sheikh Mohamed) como a estrela auto-designada, o superterrorista", afirmou a comissão. No entanto, Osama bin Laden rejeitou essa proposta. O desejo por atenção parece ter sido também o motivo que o fez entrar de cabeça no terrorismo, de acordo com a comissão, que baseou grande parte de seu relato nas confissões feitas pelo próprio Mohammed quando caiu em mãos americanas.   Ele viu a "fama instantânea" conquistada por seu sobrinho Ramzi Yousef ao organizar o primeiro atentado contra o World Trade Center de Nova York, onde uma bomba explodiu, em 1993, e matou seis pessoas, e decidiu seguir seu exemplo, segundo o Governo americano. Já tinha ligações com o terrorismo, mas seu papel até esse ponto tinha sido secundário.   Como a grande maioria dos nomes antigos da Al Qaeda, entrou no mundo do extremismo islâmico por sua experiência como mujahedin (combatente) no Afeganistão. Mohammed nasceu no Kuwait em 1965, disse hoje na audiência, em uma família proveniente de Baluchistão, a região que se estende pelo sul do Irã, Afeganistão e Paquistão.   O terrorista tem passaporte paquistanês. Ele estudou um semestre em Chowan College, uma pequena universidade batista na Carolina do Norte, e completou sua licenciatura em engenharia mecânica em dezembro de 1986 na Universidade Estadual Agrícola e Técnica do estado. O superterrorista usaria esse conhecimento de primeira mão da cultura e da língua americanas para treinar os futuros seqüestradores dos aviões usados para cometer os atentados de 11 de Setembro, segundo Washington.   Dos EUA foi ao Afeganistão lutar contra os invasores soviéticos e também combateu na Bósnia.Em 1992, se mudou para o Catar, onde um ex-alto funcionário arranjou um trabalho como engenheiro em um ministério. Com isso, estabeleceu uma rede de contatos com grupos fundamentalistas islâmicos no mundo todo, segundo os Estados Unidos.   Mohammed se transformou em um "empresário terrorista", um homem na busca de patrocinadores para seus planos de atacar os EUA, não por alguma afronta que tenha sofrido quando estudava no país, mas como castigo por sua política externa, indicou a comissão.   Desta forma, encontrou Bin Laden no Afeganistão, ao qual em 1996 apresentou, como um vendedor, sua idéia de transformar aviões de passageiros em armas de destruição em massa. Cinco anos depois, 2.973 pessoas morreram em Nova York, Washington e Pensilvânia, como resultado de seus planos.  

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