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Morre o arquiteto da Guerra do Vietnã, Robert McNamara

Ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos conduziu a mais desastrosa campanha militar no exterior

Agência Estado e Associated Press,

06 Julho 2009 | 10h37

O ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos Robert McNamara faleceu nesta segunda-feira, aos 93 anos, enquanto dormia em sua casa em Washington, informaram familiares McNamara foi secretário de Defesa dos EUA durante a Guerra do Vietnã, pela qual foi alvo de duras críticas ao longo de toda a vida, nos mandatos dos presidentes John Kennedy e Lyndon Johnson

 

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video Trecho do documentário 'Sob a Névoa da Guerra' no YouTube

 

O ex-secretário faleceu às 5h30 locais em sua residência na capital americana, disse sua mulher, Diana, à Associated Press. Ele enfrentava problemas de saúde já há algum tempo, revelou ela. McNamara teve sua vida fundamentalmente associada à Guerra do Vietnã, também chamada de "a guerra de McNamara". O conflito foi a mais desastrosa campanha militar dos EUA no exterior de que se tem notícia.

 

Conhecido como um elaborador de políticas apaixonado por análises estatísticas, McNamara deixou a presidência da Ford e assumiu o Departamento de Defesa (Pentágono) em 1961, a convite do então presidente americano John Kennedy. McNamara passou sete anos na posição de secretário de Defesa dos EUA, mais do que qualquer outra pessoa desde a criação do cargo, em 1947.

 

Sua ligação com a Guerra do Vietnã tornou-se extremamente pessoal. Até mesmo seu filho, quando estudava na Universidade Stanford, protestou contra a guerra enquanto o pai a conduzia. Em Harvard, McNamara certa vez teve de fugir de um grupo de estudantes por uma rede de túneis subterrâneos. Seus críticos o acossavam impiedosamente. Não poupavam nem ao menos seu nome do meio, "Strange", ou "Estranho".

 

Depois de deixar o Pentágono à beira de um ataque de nervos, McNamara saiu do posto, assumiu a presidência do Banco Mundial e passou a concentrar suas energias na crença de que melhorar a vida nas comunidades rurais dos países em desenvolvimento seria um caminho mais promissor para a paz do que a fabricação de armas e a mobilização de Exércitos.

 

Muito discreto, McNamara recusou-se durante anos a escrever suas memórias e a dar seu ponto de vista sobre a guerra e sua versão dos desentendimentos com seus generais. Ele começou a se abrir somente na década passada. Em 1991, McNamara revelou à revista Time que não achava que o bombardeio ao Vietnã do Norte - o maior da história militar até então - funcionaria, mas foi adiante "porque era preciso, primeiro, provar que ele não daria certo e, segundo, porque outras pessoas achavam que funcionaria".

 

Já em 1993, depois do fim da Guerra Fria, McNamara dedicou-se a suas memórias por considerar que muitas lições da Guerra do Vietnã poderiam ser aplicadas no período, "por mais estranho que pudesse parecer".

 

Sob a Névoa da Guerra

 

A abreviatura "S" de Robert S. McNamara oculta a palavra Strange (Estranho), sobrenome de sua mãe quando solteira. Mas, durante o período em que foi secretário da Defesa dos Estados Unidos (1960-67), "estranho" foi um dos qualificativos mais brandos que McNamara ouviu de seus críticos - tido como um sujeito calculista, que acreditava que os problemas poderiam ser traduzidos em fórmulas, ele era comumente acusado de ser "assassino" ou mesmo "criminoso de guerra". "Fiquei interessado pela história de McNamara porque ela me provocou uma sensação de que o mundo continua fora de controle", comentou o diretor Errol Morris em conversa telefônica com o Estado em 2004, logo depois que seu documentário Sob a Névoa da Guerra ganhou o Oscar da categoria.

 

Morris se interessou pela trajetória de Robert McNamara quando este publicou o livro In Retrospect: The Tragedy and Lessons of Vietnam (Em Retrospectiva: a Tragédia e Lições do Vietnã), em 1995. "Na época, o livro foi definido como o seu ‘mea-culpa’, mas eu, que passara os anos 1960 em passeatas contrárias à guerra do Vietnã, o entendi mais como o relato de um homem que procurava explicar porque ele e muitos outros cometeram o erro de entrar em uma guerra desastrosa", explicou. "Mesmo assim, terminei a leitura mais com dúvidas que com certezas."

 

Ocupado com atividades filantrópicas, McNamara inicialmente alegou não ter tempo para ser entrevistado, mas logo encontrou brechas em sua agenda para gravar cerca de 20 horas de conversa. O primeiro impacto causado pelas imagens de Sob a Névoa da Guerra é a quebra de um mito - apontado como um homem frio e metódico (quando esteve no Brasil em 1968, por exemplo, na função de presidente do Banco Mundial, ele foi apresentado pela imprensa como um "supercomputador vivo"), McNamara revela-se um homem marcado pelas dúvidas e questionamentos sobre sua participação na história mundial.

 

Em uma das primeiras revelações, McNamara detalha sua relação com o então general Curtis LeMay que, cinco meses antes do uso das bombas atômicas que determinaram o fim da 2.ª Guerra Mundial em 1945, autorizou o bombardeamento de 100 mil civis japoneses em Tóquio. "A vitória em uma guerra justificaria um massacre dispensável como esse?", questiona ele, no filme. Mais adiante, ele volta a surpreender ao afirmar que a iminência de uma guerra nuclear em 1961, provocada por uma crise envolvendo mísseis em Cuba, não foi resolvida pela astúcia política de John Kennedy como conta a história oficial mas por uma conjunção de caprichos e falta de bom senso.

 

(Com Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo)

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