Novos estudos apontam obsessão do FBI por Martin Luther King

Estudiosos dizem que ativista negro assassinado há 40 anos se tornou radical nos últimos anos de sua vida

Agências Internacionais,

01 de abril de 2008 | 18h40

Novos estudos de documentos sobre Martin Luther King guardados nos arquivos do FBI mostram a obsessão que a polícia federal americana possuía pelo reverendo e ativista negro ao longo dos anos 1960. Segundo David Garrow, um pesquisador de King que ganhou um prêmio Pulitzer, o FBI tentava encontrar indícios do envolvimento de King com comunistas e líderes do movimento dos direitos dos negros.  Garrow analisou os arquivos do FBI relacionados ao líder negro, assassinado no dia 4 de abril de 1968, em Memphis, no estado americano de Tennessee. J. Edgar Hoover, o lendário diretor da organização, tinha um aversão muito grande a King, como indicam notas deixadas nos relatórios confidenciais que recebia de seus agentes. O desprezo de Hoover devia-se à descoberta de detalhes constrangedores sobre a vida sexual do reverendo. O FBI registrou ao menos um encontro entre King e uma amante em um hotel de Washington. O conhecimento de vários detalhes sobre as amantes de King, segundo pesquisadores, fez com que Hoover deixasse bilhetes indignados nos documentos que foram divulgados pelo FBI. Em um deles, Hoover se dizia que estava "perplexo" com o fato de o papa ter "concedido uma audiência a um degenerado." Nos anos 1960, o FBI definia King como "o líder negro mais perigoso e eficaz do país". Em julho de 1963, o então ministro da Justiça Robert Kennedy autorizou o FBI a espionar King. Microfones chegaram a ser instalados na casa dele com o objetivo de comprovar ligações com o partido comunista, o que nunca foi provado.  Cruzada final A maior parte dos americanos vê o reverendo como o pregador do discurso 'Eu Tenho um Sonho' no memorial Lincoln Center, em Washington. Mas o homem que fez sua última viagem a Memphis em 1968 se tornou um radical, segundo estudiosos e ativistas. King apostou seu legado numa cruzada final revolucionária, que alarmou seus conselheiros mais próximos. Segundo a CNN, alguns estavam preocupados com sua instabilidade emocional. O reverendo chamou essa cruzada da 'Campanha das Pessoas Pobres'. Ele planejava marchar em Washington com uma multidão de pobres para um manifesto que visava paralisar a capital americana. O objetivo de campanha era forçar o governo federal a parar o financiamento da guerra do Vietnã e destinar esse dinheiro para o combate à pobreza. Em seu último discurso à Conferência Cristã do Sul, King teria dito que o objetivo do movimento era de "reestruturar toda a sociedade americana". Ele teria ainda defendido a nacionalização de algumas indústrias e chamado a audiência a "questionar a economia capitalista".   De acordo com a CNN, a campanha era tão arriscada que King disse a Bernard LaFayette Jr., líder da Conferência Cristã do Sul, durante uma conversa por telefone, que indicaria uma nova gerência ao grupo de direitos civis no qual ele era co-fundador. "Ele estava antecipando que alguns assassinatos poderiam ocorrer, então quis alguém para assumir as responsabilidades para continuar com o plano", disse Lafayette. "Quando ele empreendeu a campanha, King sabia que não iria vencer", disse Taylor Branch, autor de Parting the Waters: America in the King Years. O autor disse que o reverendo sabia que poderia morrer, mas acreditava que o sacrifício poderia trazer benefícios econômicos ao pobres. A radicalização do discurso do reverendo nos últimos anos de sua vida causou controvérsias com outros ativistas pelos direitos civis e fez com que King perdesse um de seus mais importantes interlocutores: o presidente Lyndon Johnson. No dia 4 de abril de 1967, exatamente um ano antes de sua morte, ele proferiu um discurso contra a gerra do Vietnã de muita repercussão. "Johnson ficou furioso", conta Roger Wilkins, um oficial destacado pelo Departamento de Justiça como ligação entre o ativista e o governo americano.

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