NYT diz que Alberto Gonzales apoiou uso de tortura pela CIA

Ex-secretário de Justiça apoiou táticas de repressão nunca usadas para interrogatórios, afirma jornal

Efe,

04 de outubro de 2007 | 11h03

Quando ocupava o cargo de secretário da Justiça dos Estados Unidos, Alberto Gonzales apoiou secretamente o uso de técnicas severas, nunca antes utilizadas pela CIA (agência de inteligência americana), nos interrogatórios de suspeitos de terrorismo, segundo informa a edição desta quinta-feira, 4, do jornal The New York Times.   Em dezembro de 2004, o Departamento de Justiça americano declarou publicamente que a tortura era uma prática "abominável". Mas a situação mudou após a nomeação de Gonzales em fevereiro de 2005, segundo o jornal, que cita como fontes vários funcionários de Washington. Envolvido nas acusações de perjúrio e escândalos diante do Congresso, Gonzales renunciou no final do mês de agosto.   O "novo conceito" circulou em documentos secretos e "pela primeira vez dava uma autorização explícita para os interrogatórios de suspeitos de terrorismo com uma combinação de táticas que provocavam dor física e psicológica", que incluíam golpes na cabeça, a simulação de afogamentos e submetê-los a temperaturas geladas, denuncia o New York Times.   O memorando sobre "efeitos combinados" para os interrogatórios foi criticado pelo então vice-ministro de Justiça, James B. Comey. Ele advertiu que os funcionários do Departamento se "envergonhariam" quando as ações fossem descobertas.   No final de 2005, o Congresso considerou ilegal o tratamento "cruel, desumano e degradante" dos prisioneiros, o que fez o Departamento de Justiça emitir outra "opinião secreta", na qual assegurava que os métodos de interrogação utilizados pela CIA não violavam esses padrões, informou o jornal. O NYT afirmou ter entrevistado mais de 20 funcionários e ex-funcionários do Departamento envolvidos na luta contra o terrorismo e a maior parte das fontes preferiu o anonimato.   Os documentos secretos com as recomendações para os interrogatórios eram assinados por Steven G. Bradbury, que desde 2005 dirigia a Seção de Consultoria Jurídica no Departamento de Justiça.   Em 2006 a Suprema Corte determinou que as Convenções de Genebra se aplicavam também aos prisioneiros que integravam a rede terrorista Al-Qaeda. Apesar disso, em julho do mesmo ano, o presidente dos EUA, George W. Bush, assinou uma nova norma executiva autorizando as técnicas de interrogatório "intensificadas". Segundo o jornal, as práticas continuam sendo secretas, enquanto a CIA mantém prisioneiros suspeitos de terrorismo em "lugares obscuros" no exterior.   Os agentes da CIA desenvolveram o programa após consultar os serviços secretos do Egito e da Arábia Saudita, e copiando métodos de interrogatórios usados na extinta União Soviética.   Os agentes se preocuparam com as implicações legais das práticas depois que vários dos seus colegas foram investigados durante três anos após assessorar funcionários peruanos que, no início de 2001 derrubaram um avião de missionários por confundi-los com traficantes, segundo o jornal.   A gestão de Gonzales foi cercada pela polêmica do afastamento de oito procuradores federais dispensados sem explicações e os rumores, nunca comprovados, de que as demissões tiveram motivação política. A maioria dos demitidos investigava casos de corrupção envolvendo o governo federal e o tratamento de detidos como supostos terroristas.   Gonzales foi criticado por ONGs de direitos civis por escrever, em janeiro de 2002, que parte da Convenção de Genebra para o tratamento de prisioneiros, escrita há meio século, havia ficado "obsoleta" e tinha algumas regras "esquisitas". Ele também foi criticado pelo programa de espionagem sem ordem judicial, adotado após os atentados de 11 de setembro de 2001. Só em janeiro, numa decisão abrupta, Gonzales finalmente anunciou que o programa estaria sujeito a aprovação judicial.

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