Obama boicota conferência da ONU sobre Racismo

Entidades do movimento negro em Chicago, no Congresso americano e na África criticaram duramente a decisão

Jamil Chade, correspondente de O Estado de S. Paulo,

19 de abril de 2009 | 11h17

O presidente Barack Obama boicota a conferência das Nações Unidas sobre Racismo em Genebra e causa, para alguns, a primeira decepção internacional de seu mandato. Entidades do movimento negro em Chicago, no Congresso americano e na África criticaram ontem duramente a decisão de Obama, que optou por não enviar uma delegação à Genebra diante da linguagem anti-Israel no acordo que servirá de base para a conferência. Além disso, Washington teme que a conferência se transforme em uma plataforma antissemita e ainda um ataque contra a liberdade de expressão.

 

Hoje, a ONU abre sua 2ª conferência mundial para tratar do racismo. O evento se transformou em um enfrentamento entre o Ocidente e os países islâmicos. Além dos Estados Unidos, os governos de Israel, Canadá, Austrália, Holanda e Itália também optaram por boicotar o encontro.

Esvaziado, o encontro será inaugurado com o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, que se transformou na principal estrela do evento diante do boicote dos demais governos e já afirmou que o Holocausto era "um mito".

 

Nos últimos dias, governos conseguiram chegar a um entendimento sobre o acordo da conferência.

O texto já não fala nem de Israel nem de questões de difamação religiosa, pontos que os países Ocidentais se recusavam a aceitar. Mesmo assim, o texto faz referência à primeira conferência conta o racismo, que ocorreu em 2001. Naquela ocasião, tanto americanos como israelenses abandonaram o encontro diante da tentativa dos países árabes de classificar sionismo como uma forma de racismo. Agora, o governo dos Estados Unidos se recusa a participar do encontro, alegando que não pode aceitar um acordo que faz referência a uma declaração de 2001 em que ele se recusou a assinar.

 

O Departamento de Estado norte-americano explicou que o boicote estava baseado em dois fatores.

Além da referência a 2001, e portanto a Israel, Washington alega que o texto faz referência à proteção de religiões que acabariam sendo limitações à liberdade de expressão. O texto aponta a necessidade de lutar contra o "incitamento religioso". Para os países árabes, isso incluiria limitar críticas na imprensa sobre as religiões.

 

"Infelizmente, parece claro agora que nossas preocupações não serão lidadas no documento adotado na conferência", afirmou Robert Wood, porta-voz do Departamento de Estado, que "lamentou o boicote".

A decisão foi tomada depois de uma avalanche de visitas de grupos de lobby pró-Israel à Casa Branca. O Comitê Israel-Americano de Relações Públicas saudou a decisão. Em Genebra, grupos ligados à comunidade judaica também apoiaram a decisão.

 

Outros países seguiram a decisão a americana. "Austrália não participará", anunciou o ministro de Relações Exteriores da Austrália, Stephen Smith. "Lamentavelmente, não temos confiança de que a conferência não será usada como uma plataforma para divulgar visões antissemitas", disse Smith. O Canadá também citou os mesmos motivos para não participar do evento.

 

A cúpula da ONU encontrou em contato com chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para pedir que Berlim não deixasse o encontro. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, também foi contactado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, com o mesmo pedido.

 

Na noite de ontem, a República Tcheca convocou os governos europeus para um encontro de emergência para tomar uma decisão. O Reino Unido garantiu que estará hoje em Genebra. Mas para o ministro das Relações Exteriores da Holanda, Maxime Verhagen, o evento será "abusado politicamente para colocar religiões acima dos direitos humanos". Para ele, o acordo proposto é "inaceitável" e os ataques à liberdade de expressão não podem ser aceitos. "A Holanda não acredita que a conferência seja uma contribuição à luta contra o racismo", disse.

 

Reações - O movimento negro não gostou do comportamento de Obama. "É lamentável", disse a deputada Barbara Lee, líder da bancada negra no Congresso americano. Juliette de Rivero, representante da entidade Human Rights Watch também atacou a decisão americana. "Estamos decepcionados com o compromisso de Obama de defender os direitos humanos no cenário internacional", disse.

 

Malaak Shabazz, a filha de El-Hajj Malek ul Shabazz, conhecido como Malcolm X, também deixou claro sua decepção. "É uma tristeza que o primeiro presidente negro americano não envie uma delegação à conferência sobre racismo. Quase chorei a saber da notícia", disse a filha do ativista. Em uma carta ao governo, ela alerta que "o fato de Obama ter sido eleito não significa que o racismo acabou nos Estados Unidos". "Essa conquista é a exceção, não a norma nos Estados Unidos", disse. Segundo ela, a situação dos negros nos Estados Unidos deixa claro que a democracia racial ainda "é um mito". Uma carta aberta assinada por mais de cem ativistas do movimento negro, inclusive de Chicago, "lamenta" a decisão de Obama.

 

"Para o movimento negro mundial, o boicote de Obama é uma grande decepção e terá repercussão em sua imagem, mesmo ele sendo o primeiro presidente negro da história americana", afirmou o senegalês Doudou Diene, ex-relator da ONU para o combate ao Racismo.

 

Organizações da sociedade civil e redes da América Latina também criticaram o boicote e a redução dos debates às questões árabes e israelenses. "Condenamos estas atitudes, que para nós também são expressões modernas de racismo, uma vez que excluem do debate temas como reparação para a população afrodescendente, combate à discriminação contra as mulheres e respeito à orientação sexual", afirma a coordenadora da Rede de Mulheres Afro Latino-Americanas, Caribenha e da Diáspora, Dorothea Wilson.

 

Irã - Agora, o temor é de que a conferência se transforme em um palco para Ahmadinejad e a ameaça do Irã de polemizar sobre o Estado de Israel e o holocausto, exatamente no dia do aniversário de Adolf Hitler, que também ocorre.

 

"É irônico que o homem que pede destruição de Israel se transforme no centro de atenção da conferência. É um tapa na cara da comunidade internacional", afirmou a iraniana exilada Nazanin Afschin Jam, modelo internacional e hoje ativista.

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