Obama busca dar resposta rápida a golpe em Honduras

Presidente americano tenta evitar que suas ações sejam interpretadas como intervencionismo norte-americano

Agência Estado e Associated Press,

30 de junho de 2009 | 11h24

Ao lidar com sua primeira crise na América Latina desde assumir, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, buscou uma resposta clara e rápida. Ao mesmo tempo, Obama se distanciou do que poderia ser interpretado como intervencionismo norte-americano, em uma região que rechaça tal postura.

 

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O líder dos EUA condenou o golpe em Honduras, referindo-se à mais confiável de suas plataformas: a democracia. "Nós ficamos do lado da democracia, soberania e autodeterminação", afirmou ele, na segunda-feira, 29, ao ser questionado sobre o exílio forçado do presidente hondurenho, Manuel Zelaya. A expulsão de Zelaya foi condenada internacionalmente, em uma parte do mundo que lutou anos para se livrar da fama de usar "métodos duros".

 

A oportunidade não poderia ser desperdiçada. Obama mencionou alguma variação da palavra democracia oito vezes em sua fala. Ele inclusive se referiu a George Washington, um dos "pais" da democracia norte-americana e o primeiro presidente da nação.

 

A resposta colocou Obama ao lado de grande parte do mundo, enquanto o recentemente apontado novo líder hondurenho, Roberto Micheletti, viu-se rapidamente isolado. Obama deixou outras questões relativas à crise de Honduras para sua equipe resolver, mas afirmou que os EUA trabalhariam com os organismos internacionais por uma solução pacífica.

 

Tudo até então está claro. O que vem em seguida, porém, é mais nebuloso. Micheletti e o Congresso que o empossou ficaram firmes em sua postura, após soldados armados invadirem o palácio e forçarem Zelaya a se exilar. O líder deposto já disse que pretende voltar como "presidente eleito pelo povo". Já a polícia e soldados entraram em confronto com manifestantes na capital Tegucigalpa.

 

Obama, com o peso nas Américas de uma voz popular de um país poderoso, estabeleceu sua forma de abordar a questão. Ele trabalhará na esfera dos grupos existentes, particularmente da Organização dos Estados Americanos (OEA), que reúne países do Hemisfério Ocidental, e não tentará ditar uma resposta única dos EUA.

 

Esta é a promessa feita por ele há dois meses, durante um encontro de líderes em Trinidad e Tobago: os Estados Unidos como um parceiro igual, e não um com mais força, na região.

 

Politicamente, porém, a retirada hostil de um presidente democraticamente eleito exige uma resposta de um presidente dos EUA. Obama, criticado pelos oposicionistas republicanos por ser muito devagar para reagir à turbulência pós-eleitoral no Irã, rapidamente demonstrou preocupação, no dia em que Zelaya foi deposto.

 

Depois disso, em termos claros, Obama voltou ao assunto após um encontro com um aliado dos EUA na região, o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe. "Seria um precedente terrível se nós começarmos a andar para trás até uma era em que víamos golpes militares como uma forma de transição política, e não eleições democráticas", afirmou o norte-americano. "A região fez enorme progresso nos últimos 20 anos em estabelecer tradições democráticas na América Central e na América Latina. Nós não queremos voltar para um passado sombrio."

 

Falando sobre o passado, Obama apontou que os EUA "nem sempre portaram-se como deveria" com as democracias da região. Isso, também, remete à postura prometida em abril, mostrando que os EUA podem fortalecer sua posição, ao reconhecer os momentos em que se portaram diferentemente de seus próprios valores.

 

Um pesquisador do Woodrow Wilson Internacional Center, José Raúl Perales, disse que a resposta de Obama à crise foi rápida e em consonância com os líderes do hemisfério e também de outros países. Obama pode levar peso ao assunto e adicionar credibilidade a uma emergente fórmula de respostas regionais para as crises.

 

Porém ainda restam pela frente grandes problemas em Honduras - entre eles o fato de fracassadas instituições democráticas levarem a nação a recorrer a um golpe militar. Os distúrbios ocorreram após Zelaya convocar um referendo sobre uma Assembleia Constituinte, desafiando a Suprema Corte e o Congresso hondurenhos. A medida era vista como uma forma de o presidente conseguir alterações na lei a fim de disputar um novo mandato.

 

Isso significa que, ainda que Obama ajude a conseguir a paz, problemas mais profundos permanecem. "As tensões persistirão, independentemente do resultado", nota Perales. Essas tensões, enquanto isso, parecem apenas estar crescendo, nas primeiras horas de um conflito. Líderes esquerdistas retiraram seus embaixadores de Honduras. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, pediu que os hondurenhos se insurjam contra o novo governo. Os EUA ainda não cortaram auxílio nem retiraram funcionários do país.

 

Como Obama fez com o Irã - um conflito mortífero, de maiores proporções no cenário mundial -, ele manteve sua ênfase nos direitos das pessoas. "Eu acho que ao fim o que é mais importante é que o povo sinta um senso de legitimidade e posse, e que isso não é algo imposto a eles de cima", afirmou Obama. Ele acrescentou que não pode haver "alterações ilegais do processo eleitoral nem repressão a vozes da oposição".

 

A mensagem de Obama parecia muito mais dura que a de sua secretária de Estado, Hillary Clinton, mais cedo no mesmo dia. Ambos enfatizaram, porém, o aspecto mais abrangente do retorno à ordem constitucional. Quando Hillary foi diretamente questionada sobre se os EUA exigiam o retorno de Zelaya ao poder, ela disse: "Nós não estabelecemos quaisquer exigências em que estejamos insistindo". Obama ainda não teve que responder à mesma pergunta. Por enquanto.

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