Obama diz que jovem negro morto na Flórida poderia ser seu filho

O presidente dos EUA, Barack Obama, entrou na sexta-feira na polêmica envolvendo a morte de um adolescente negro na Flórida, dizendo que o rapaz poderia ser o filho que ele nunca teve, e aconselhando os norte-americanos a fazerem uma reflexão sobre o caso.

REUTERS

23 Março 2012 | 21h03

Trayvon Martin, 17 anos, foi morto há um mês em Sanford, na Flórida, por um branco de 28 anos que atuava como vigilante voluntário em um bairro hispânico, e que disse agir em legítima defesa contra o rapaz, que usava uma blusa com capuz.

"Se eu tivesse tido um filho, ele seria parecido com Trayvon", disse Obama, primeiro presidente negro na história dos EUA, admitindo haver um componente racial no caso.

"Obviamente, isso é uma tragédia", declarou Obama a jornalistas, nas suas primeiras declarações públicas sobre o incidente. "Só posso imaginar o que esses pais estão passando. E quando penso nesse menino, penso nas minhas próprias filhas."

O caso repercutiu em todo o país e motivou manifestações contra a polícia por não ter prendido o assassino George Zimmerman e, em termos mais gerais, por causa de um suposto padrão de discriminação racial em Sanford e em outras partes dos EUA.

Os pais de Martin agradeceram Obama por suas palavras, proferidas ao final de um evento na Casa Branca.

"As declarações pessoais do presidente nos tocaram profundamente e nos fizeram perguntar: se o filho dele parecesse com Trayvon e usasse um capuz, seria suspeito também?", disseram eles em nota.

Uma lei da Flórida autoriza as pessoas a usarem a força letal para se defenderem. Ativistas estão pedindo a revogação de leis desse tipo vigentes em 24 Estados dos EUA. Nesta semana, um senador estadual da Flórida anunciou um projeto para alterar drasticamente a legislação.

Na Carolina do Sul, o deputado estadual democrata Bakari Sellers - que é negro e dono de arma - também propôs a revogação de uma lei de "defesa do terreno". "Tenho 65 anos e sou negro. Sei que poderia ter sido comigo", afirmou.

Obama disse que essas leis de autodefesa deveriam ser reavaliadas. "Acho que todos nós deveríamos fazer uma reflexão para entender como algo assim acontece. E isso significa examinar as leis e o contexto do que aconteceu, e também as questões específicas do incidente."

"Todo pai na América deveria ser capaz de entender por que é absolutamente imperativo que investiguemos todos os aspectos disso, e que todos se unam - (em nível) federal, estadual e local - para entender exatamente como essa tragédia aconteceu."

Filho de uma norte-americana branca com um queniano negro, Obama geralmente evita se envolver em questões raciais, já que esse é um tema delicado nos EUA devido ao passado de escravidão e segregação no país.

Uma exceção ocorreu no começo do seu mandato, quando Obama criticou um policial que havia detido o cineasta negro Henry Louis Gates na sua própria casa, ao confundi-lo com um invasor.

Para promover as pazes entre Gates e o policial, Obama convidou ambos para tomarem uma cerveja na Casa Branca.

(Por Jeff Mason e Daniel Trotta)

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