AP
AP

Obama mantém política Bush para o Brasil, diz analista

Em 100 dias, presidente americano deu continuidade à boa relação, mas ainda não mudou protecionismo

Gabriel Pinheiro, estadao.com.br

29 de abril de 2009 | 07h17

Em 100 dias na Casa Branca, o presidente norte-americano, Barack Obama, demonstrou multilateralismo diplomático, mas ainda não mudou um ponto crucial nas relações com o Brasil: o protecionismo agrícola. A avaliação é de Paulo Edgar Resende, dirigente do Núcleo de Estudos em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP). "A relação de George W. Bush (ex-presidente dos EUA) com Lula foi bastante tranquila. No caso de Obama, ele dá continuidade a essa boa diplomacia, porém ainda sem anunciar, por exemplo, mudanças no que diz respeito ao protecionismo agrícola", afirma o especialista.

 

Veja também:

Especial: 100 dias de Obama

Ao completar 100 dias, Obama iguala Reagan em aprovação

 

Ele destaca que o chefe de Estado está "moderado" sobre a questão porque sabe que o Congresso não deve reverter totalmente uma situação de subsídios que beneficia o mercado interno. Mas, de acordo com o analista, mudanças podem acontecer. "Pode haver algum desdobramento do que o Brasil considera prejudicial aos seus interesses, mesmo porque os EUA têm atenção especial com o governo Lula, na medida que o País é protagonista na abertura do diálogo de Washington com Hugo Chávez (presidente venezuelano) e Evo Morales (líder boliviano)", disse. "Há essa porta aberta para um diálogo, porém ela não é tão larga porque não depende só de Obama; depende também do Congresso."

 

No âmbito mundial, Resende afirma que o estilo de Obama, já evidente nos primeiros meses de governo, revela uma tendência de "distanciamento do unilateralismo", adotado pela administração anterior. "Ele fez algumas correções importantes na política externa. No caso do Irã, por exemplo, há abertura para diálogo. Com relação a Israel, existe uma tentativa de colocar alguns freios diante de um governo que reluta em admitir o Estado palestino", explica.

 

Mas, para o especialista, a herança de Bush não foi tão negativa para o novo presidente, que tem a aprovação de 68% dos americanos, segundo pesquisa divulgada nesta semana. "A popularidade de Obama está diretamente relacionada à impopularidade de Bush", aponta. Na política interna, Resende diz que nos primeiros 100 dias Obama demonstrou "vigor para enfrentar a crise econômica através de auxilio a empresas", algo que os EUA são tradicionalmente avessos, "sem abdicar aos fundamentos do liberalismo."

 

Cuba

 

Após anos de tensões com Washington, sob o governo Obama Cuba voltou à mesa de discussões. O presidente anunciou medidas importantes como o fim das restrições sobre viagem à ilha e liberou remessas de dinheiro para cubano-americanos. Por sua vez, o governo de Raúl Castro também sinalizou abertura para o diálogo, a ponto de o presidente dizer que estava disposto a negociar "tudo" com Washington. Mas o embargo comercial, que já dura quase meio século, continua.

 

"As sanções poderiam ser compreensíveis na época em que a ilha se mostrava ligada à União Soviética. Uma vez superada essa Guerra Fria, mesmo os aliados que legitimavam de alguma forma esse bloqueio da parte dos EUA passaram a ter uma posição de maior suspensão a respeito", avalia o especialista. "Não tem mais nenhuma lógica do ponto de vista político e econômico esse isolamento."

 

A grande expectativa agora fica para o fim do bloqueio. Para Resende, porém, o término das sanções não deve ser uma tarefa fácil para o presidente. "Derrubar o embargo não depende apenas do Obama, mas também do Congresso", afirma. "Além disso, aqueles cubanos mais radicais estão deixando de ter a influência que tinham sobre a política externa dos EUA com relação a Cuba."

 

Matéria alterada em 30 de abril, às 16h05.

 

Tudo o que sabemos sobre:
Barack ObamaEUA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.