Obama pede que Exército egípcio garanta mudança democrática

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse na sexta-feira que a renúncia de Hosni Mubarak refletiu o desejo do povo egípcio, e pediu às poderosas Forças Armadas do país que assegurem uma transição rumo à "genuína democracia".

MATT S, REUTERS

11 de fevereiro de 2011 | 20h01

A renúncia de Mubarak, que passou 30 anos no poder e foi abatido por 18 dias de rebelião popular, cria uma profunda incerteza para os EUA, temerosos de que a instabilidade se espalhe para outros países do Oriente Médio e abra espaço para avanços do fundamentalismo islâmico.

"O povo do Egito falou", disse Obama a jornalistas. "Os egípcios deixaram claro que nada aquém de uma genuína democracia irá lhes convencer."

Obama admitiu que a renúncia de Mubarak não é o final, e sim o começo de uma transição democrática. "Haverá muitos dias difíceis pela frente e muitas perguntas continuarão sem serem respondidas."

Não está claro qual foi o papel dos EUA na renúncia de Mubarak, mas desde o início da crise o secretário de Defesa, Robert Gates, conversou cinco vezes por telefone com o marechal Mohamed Hussein Tantawi, chefe do Supremo Conselho Militar do Egito e novo homem forte do país. A última conversa ocorreu na quinta-feira à noite.

Ao longo dos protestos, Washington se equilibrou entre apoiar as aspirações democráticas do povo, por um lado, e não abandonar um aliado tradicional como Mubarak e não causar nervosismo em outros países amigos da região, como Israel e Arábia Saudita.

Os EUA destinam 1,3 bilhão de dólares por ano em ajuda militar ao Egito, e Obama deixou clara a importância que dá à preservação dessas boas relações.

"Os militares serviram patriótica e responsavelmente como guardiões do Estado, e agora terão de assegurar uma transição que seja crível aos olhos do povo egípcio", afirmou.

Os funcionários do Pentágono mantiveram-se calados a respeito do teor das conversas de Gates com Tantawi, mas o secretário elogiou publicamente os militares egípcios por serem uma força estabilizadora durante a rebelião.

Embora vejam Tantawi como um aliado comprometido em evitar outra guerra contra Israel, algumas autoridades norte-americanas consideravam, reservadamente, que o marechal é resistente a reformas políticas e econômicas, segundo um memorando interno de 2008 do Departamento de Estado, divulgado pelo site WikiLeaks.

BRONCA DE OBAMA

Mubarak deixou o poder um dia depois de Obama aparentemente recriminá-lo por não ter usado um pronunciamento à nação para renunciar. Na noite de quinta-feira, Mubarak disse que transferiria alguns poderes a seu vice, Omar Suleiman, mas que ficaria no cargo até as eleições de setembro.

Após a demonstração de impaciência de Obama, não ficou claro se as autoridades dos EUA tiveram participação na saída de Mubarak. Nos últimos dias, funcionários norte-americanos mantinham constantes contatos nos bastidores com o governo e os militares do Egito.

Obama foi informado sobre a renúncia de Mubarak durante uma reunião no Salão Oval, e em seguida assistiu pela televisão à celebração popular na praça Tahrir (Libertação), no centro do Cairo.

Autoridades norte-americanas têm dito repetidamente que estão entrando em um terreno desconhecido no Egito e no Oriente Médio, e que pode haver um longo período de incerteza e volatilidade.

"Esta é uma ótima notícia para Obama, já que ele e seu governo apostaram tão publicamente em uma posição de que a mudança deveria acontecer agora. Mas é só o começo do processo", disse Brian Katulis, especialista em Oriente Médio do Centro para o Progresso Americano, e consultor informal da Casa Branca. "Agora começa o trabalho de verdade."

A abordagem cautelosa de Obama se baseia na importância estratégica do Egito, mais populoso país do mundo árabe.

Além de ser um dos raros governos da região que não tem hostilidade com Israel, o país administra o canal de Suez, que liga a Europa à Ásia, e é uma força importante contra o avanço dos militantes islâmicos na região.

(Reportagem adicional de Patricia Zengerle, Jeff Mason, Ross Colvin, Alister Bull e Susan Cornwell)

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