Obama pressiona líder chinês por câmbio e direitos humanos

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, pressionou na quarta-feira seu homólogo chinês, Hu Jintao, a permitir a valorização do iuan e a melhorar a situação dos direitos humanos em seu país.

CHRIS BUCKLEY E MATT S, REUTERS

19 de janeiro de 2011 | 20h08

Em meio à pompa de uma visita de Estado, os dois líderes falaram apaixonadamente sobre cooperação, mas não apresentaram nenhuma novidade -- nem progressos significativos -- sobre uma série de disputas que marcam as relações bilaterais, como comércio e segurança.

Praticamente a única concessão de Hu Jintao foi um acordo comercial de 45 bilhões de dólares, aparentemente destinado a atenuar o sentimento antichinês nos EUA e permitir que Obama alardeie a geração de empregos, num momento em que a taxa de desocupação entre os norte-americanos continua teimosamente acima dos 9 por cento.

"Demonstramos que os Estados Unidos e a China, quando cooperamos, podem receber benefícios substanciais", disse Obama na entrevista coletiva ao lado do líder chinês, na Casa Branca.

Mas logo o presidente norte-americano entrou em um dos aspectos mais delicados da relação bilateral, ao dizer com todas as letras que a moeda chinesa continua excessivamente desvalorizada. Críticos da política cambial de Pequim dizem que isso reduz a competitividade das empresas norte-americanas.

"Precisa haver um maior ajuste na taxa de câmbio", disse Obama.

Hu Jintao ouviu as queixas feitas por Obama na entrevista coletiva, mas não as comentou, mantendo dessa forma o mistério sobre as intenções da China sobre essa candente questão.

DIREITOS HUMANOS

Obama foi mais assertivo ao falar da questão dos direitos humanos do que durante sua visita de 2009 a Pequim, quando críticos nos EUA disseram que ele foi excessivamente deferente aos anfitriões.

Mesmo assim, na quarta-feira ele continuou buscando um tom comedido, para evitar antagonismos com a liderança comunista da China.

"Repeti ao presidente Hu que temos algumas visões centrais como norte-americanos sobre a universalidade de certos direitos -- liberdade de expressão, liberdade religiosa, liberdade de reunião -- que achamos serem importantíssimos e que transcendem as culturas", disse Obama.

"Fui muito sincero com o presidente Hu a respeito dessas questões", acrescentou ele, antes de admitir que podem existir pontos de discordâncias.

Obama conclamou seu colega a um diálogo com representantes do líder espiritual tibetano no exílio, o Dalai Lama, e pediu respeito à liberdade de culto da população do Tibete.

Na sua vez de falar, Hu Jintao disse que a China fez um "enorme progresso" na questão dos direitos humanos, mas admitiu, sem entrar em detalhes, que "muita coisa ainda precisa ser feita".

Obama disse que ele e o presidente chinês "concordaram que a Coreia do Norte deve evitar novas provocações" e que as sanções internacionais ao Irã devem ser plenamente implementadas.

As autoridades dos EUA eventualmente recriminam Pequim por não pressionar suficientemente o Irã e a Coreia do Norte por causa de seus respectivos programas nucleares.

Em comunicado conjunto, Obama e Hu pareceram colocar de lado o recente rancor sobre os norte-coreanos, que alarmaram a comunidade internacional com o bombardeio de uma ilha sul-coreana e as reivindicações de novos avanços nucleares. O documento não revelou novos caminhos para conter Pyongyang.

Obama reconheceu que o iuan subiu em relação ao dólar nos últimos meses, mas disse que não era o suficiente. "Então, vamos continuar de olho no valor da moeda chinesa para que seja cada vez mais orientada pelo mercado, o que irá ajudar a garantir que nenhuma nação tenha vantagem econômica indevida", disse ele.

Na declaração conjunta, a China disse que continua empenhada em reformar suas políticas cambiais e concordou em buscar caminhos para criar um fluxo comercial mais equilibrado entre os dois países.

Até agora, Pequim tem resistido às pressões por uma rápida valorização de sua moeda, uma medida que poderia ajudar a reduzir o superávit comercial da China com os EUA, que Washington coloca em 270 bilhões de dólares.

O Congresso defende a criação de uma legislação para punir Pequim por suas políticas comerciais e cambiais. Em carta, um grupo de 84 parlamentares pediu a Obama na quarta-feira que falasse a Hu Jintao que "a paciência dos EUA está perto do fim".

COMPETIÇÃO E COOPERAÇÃO

Ao receber Hu Jintao na Casa Branca, Obama saudou o evento como uma chance de demonstrar que as duas maiores economias mundiais "têm um enorme interesse no sucesso uma da outra."

"Embora nossas nações compitam em algumas áreas, podemos cooperar em outras", afirmou ele numa bem ensaiada cerimônia de recepção. "Aproveitemos juntos as oportunidades."

Falando mais tarde a um grupo de líderes empresariais chineses e norte-americanos, Obama pressionou por mais equilíbrio nas condições do comércio com a China, enquanto Hu Jintao fez o mesmo apelo em benefício das empresas chinesas que atuam no mercado norte-americano.

Os dois países usaram a cúpula para apresentar uma série de acordos, inclusive a compra pela China de 200 aviões da Boeing. Autoridades norte-americanas dizem que esse negócio de 45 bilhões de dólares sustentará cerca de 235 mil empregos nos

EUA.

(Reportagem adicional de Jeff Mason, Ross Colvin e Caren Bohan, em Washington; e de Ben Blanchard e Sui-Lee Wee, em Pequim)

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