Obama será menos unilateral, mas protecionista, diz professor

Para Luis Fernando Ayerbe, crise econômica impõe multilateralismo aos EUA

Gabriel Bueno da Costa, da Agência Estado,

30 de dezembro de 2008 | 23h59

A posse do presidente eleito Barack Obama, em 20 de janeiro, marcará uma fase mais multilateral do governo dos Estados Unidos, diferentemente de seu antecessor, George W. Bush Além da própria preferência política do Partido Democrata, contribuirá para isso a crise econômica, que não permitirá aos norte-americanos impor uma agenda unilateral ao mundo. A opinião é do professor Luis Fernando Ayerbe, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Também diretor do Observatório das Relações Estados Unidos - América Latina (Oreal), Ayerbe é doutor em História pela Universidade de São Paulo e livre-docente pela Unesp. As relações interamericanas estão entre suas especialidades. Em 2001, Ayerbe recebeu o Prêmio Casa de las Américas, na categoria Ensaio Histórico-Social, pelo livro "Estados Unidos - América Latina: A Construção da Hegemonia". Já foi professor-visitante na Universidade Harvard e na Universidade Autônoma de Barcelona.  Ayerbe lembra que a América Latina não é uma prioridade para os EUA e isso não deve se alterar na próxima administração, mas há a possibilidade de mudanças logo no início do governo na política para Cuba. Obama já sinalizou que pretende afrouxar algumas das sanções impostas pelo governo Bush a Havana. A situação de crise mundial tende a tornar os EUA mais protecionistas, também pela relação histórica entre os democratas e os sindicatos, aponta Ayerbe. O analista pontua ainda que o Brasil deverá em alguns anos atingir no âmbito regional "um patamar reconhecido por todos".  Com a eleição de Obama, o sr. acha que pode haver uma mudança importante na relação entre Brasil e EUA? A eleição de Obama traz a seguinte questão: a América Latina já ocupa um espaço pequeno entre as prioridades dos Estados Unidos. Com essa crise econômica, o governo Obama estará bastante ocupado com questões domésticas. No caso das relações exteriores, deve haver medidas de impacto mais simbólicos, como fechar a base de Guantánamo [em território cubano, onde os EUA mantêm uma prisão] E tornar menos rígidas as relações com Cuba, e não mudanças estruturais nas relações com outros países. No caso do Brasil, a postura de Obama foi diferente em comparação à do (candidato derrotado) John McCain. O republicano defendeu a redução de tarifas no caso do etanol. Obama mostrou uma postura mais protecionista, votando contra o acordo bilateral com a Colômbia por causa de temas trabalhistas e ambientais - no fundo, também argumentos protecionistas. Até pela trajetória, Obama será menos favorável a implementar acordos de livre comércio. Com a crise mundial, isso tende a se agravar por causa da proteção de empregos e do controle da imigração. Não acho que haverá imediatamente grandes mudanças, mas dadas a crise econômica e as características do novo governo certamente haverá uma postura mais fechada com relação ao livre comércio. No caso das relações mais amplas, o governo brasileiro é considerado pelo americano como uma força estabilizadora na região, há um grande reconhecimento do papel que tem o Brasil em uma região em que não há grandes problemas. O governo americano localiza no Brasil os principais contenciosos na Tríplice Fronteira [com Paraguai e Argentina]. No caso da Colômbia, há o narcotráfico e a guerrilha, além do contencioso com o governo venezuelano. As prioridades dos EUA, com relação à América Latina, estão mais em questões de segurança ligadas à criminalidade, como na fronteira mexicana, onde há a Iniciativa Mérida e para onde foram destinados muitos recursos, e o Plano Colômbia. A oportunidade para se delinear a política sul-americana de Obama será a cúpula de presidentes [das Américas, em abril, em Trinidad e Tobago], logo no início da gestão dele. O tema principal do encontro é comércio e juventude, mas pelo menos vai obrigar o governo dos EUA a apresentar alguma agenda para a região.  Obama fala em um maior foco nos esforços ambientais. O sr. acredita que isso poderia se traduzir em uma diminuição dos subsídios à agricultura? O Partido Democrata tem uma forte presença dos sindicatos e há a questão dos empregos. Talvez os argumentos ambientais e trabalhistas sejam utilizados também como fator de protecionismo aos empregos nos EUA. No primeiro ano, será difícil que haja alguma sinalização mais clara nessa questão. O governo estará voltado basicamente para a crise interna.  A prometida ênfase no multilateralismo sob Obama pode mesmo ocorrer ou os problemas internos pesarão mais? Essa crise por que passa os EUA talvez ajude a diminuir essa visão unilateral porque para sustentar políticas como as de Bush é preciso ter um forte poder econômico, forte capacidade de investir recursos. Na última eleição, quando Bush se reelegeu, o grande tema era o terrorismo. Agora, há vários: além da crise econômica, há a emergência da Rússia, o programa nuclear do Irã, os problemas no Iraque, o terrorismo. Uma série de desafios que na prática exigem uma capacidade de ação do governo norte-americano bastante diversificada e investimento de recursos num contexto de crise econômica. Isso, para além das preferências de Obama, torna os EUA menos capazes de levar adiante políticas sem o apoio das outras grandes potências. Obama é alguém que coloca a importância da retomada da liderança dos EUA, mas uma liderança que não seja impositiva e se apóie nos aliados e num consenso. O governo Obama - seja pelas dificuldades econômicas colocadas, seja por suas preferências políticas - será menos impositivo e unilateral que Bush.  O sr. vê algum ponto positivo no governo Bush? Essa é uma questão também de opinião política. Ronald Reagan era um conservador, como Bush. Mas posso dizer que, mesmo não sendo um conservador, o governo Reagan foi bem-sucedido porque, naquilo que se propôs a fazer, dentro da sua racionalidade política, teve sucesso. Avaliando o governo Bush, nesse sentido do que se propôs a fazer e seus resultados, foi um governo em que não vejo aspectos positivos, falando de política exterior. É um governo muito preocupado com a liderança dos EUA e em estabelecer critérios sobre bons e maus governos. Pegou um país com um superávit nas contas públicas e já no final da primeira gestão existia um grande déficit. Dilapidou recursos de poder com políticas que não atingiram os resultados esperados. Nesse sentido, esse governo foi um fracasso - não estou entrando no mérito se gosto ou não. Colocou os EUA em uma situação mais vulnerável tanto economicamente quanto em relação a recursos de poder. A invasão do Iraque deixou como saldo a percepção de que os EUA não são tão poderosos quanto aparentam e sinalizou para outros países que, mesmo com os EUA ocupando um país, a resistência pode minar sua capacidade intervencionista. Ou seja, dilapidou recursos de poder e mostrou que os limites do poder americano são importantes. A idéia que se tinha era de que, antes da invasão no Iraque, os EUA tinham um grande poder militar, podiam invadir vários países ao mesmo tempo e possuíam uma sensação de invulnerabilidade. No fim do governo Bush, a sensação é de um país em retração e com poucos recursos econômicos para conseguir uma retomada.  O Brasil tem uma campanha antiga por uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Essa campanha pode, de alguma forma, avançar no governo Obama? O problema também não é tanto o governo Obama, mas o Brasil encontrar resistências na própria região. Tanto México como Argentina, embora não se manifestem abertamente, tem um pouco essa idéia de que 'já que nós não podemos, o Brasil também não pode', e há essa resistência. A questão da cadeira permanente no Conselho de Segurança não é algo que vai se colocar de forma fácil, como não foi até agora. Não tanto pelo governo Obama, mas também porque há outros candidatos, o Conselho teria de ser ampliado não só com o Brasil, mas com outros países, como o Japão e vários emergentes. Não é uma coisa fácil.  Um relatório divulgado recentemente, elaborado pelos serviços de inteligência dos EUA, aponta que a China e a Índia devem ser potências mundiais até 2020 e o Brasil terá importância mais regional. O sr. concorda? Concordo no caso de Brasil e China. É difícil ver que a Índia possa ter um poder equiparável à China. O Brasil sim, será uma potência regional e a China, sob todas as projeções, ultrapassará em termos de riqueza absoluta os EUA. Mas em termos de riqueza relativa não, pois o PIB per capita nunca vai chegar ao padrão dos países avançados. Em termos de poder econômico, certamente a China está em uma situação de crescimento. Mas a China, diferentemente da Rússia, por exemplo, não se apresenta como potência militar. Moscou tem essa tradição, vinda da Guerra Fria, de equiparar a potência econômica com uma presença internacional, como por exemplo com a visita recente do presidente Dmitry Medvedev a Brasil, Venezuela e Cuba. É a idéia de mostrar que é uma potência no âmbito militar. A China tem outro perfil: ao conquistar poder econômico, vai se tornar mais influente, naturalmente, e será imprescindível para qualquer discussão sobre o que fazer com o mundo. Portanto, vejo a China como um grande poder do século 21, mas não um poder como o dos EUA, que é militar e busca ditar ao mundo normas sobre como ele deve ser. No caso da Índia, não sou especialista no país, mas não vejo tanta chance de se tornar uma das grandes potências. Agora o Brasil sim, no âmbito regional, vai atingir um patamar reconhecido por todos.

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