Política comercial ganha peso com acirramento de prévias nos EUA

As vitórias de quinta-feira à noiteobtidas nas prévias presidenciais de Iowa pelo republicano MikeHuckabee e pelo democrata Barack Obama devem redobrar a atençãoa respeito das políticas comerciais dos pré-candidatos antes darealização do segundo round das primárias, em New Hampshire. O fechamento de postos de trabalho em Estadosnorte-americanos que realizam as primeiras prévias deveinfluenciar os eleitores e pode ter implicações de longo prazona disputa pela Presidência dos EUA. O nervosismo em torno da situação da economianorte-americana, incluindo a fragilidade do mercado imobiliárioe um aumento menor no número de postos de trabalho--especialmente depois da divulgação, na sexta-feira, de dadospreocupantes sobre o emprego--, deve influenciar a opinião doseleitores sobre o lugar dos EUA na economia global, afirmaramespecialistas em questões comerciais e manufatureiras. "Nos primeiros Estados a realizarem as prévias --Iowa, NewHampshire e Carolina do Sul--, a apreensão gerada pelo comércioe pela globalização e o nervosismo a respeito do futuroocuparão um lugar de destaque para muitas pessoas", disse ScottPaul, diretor da Aliança para os Fabricantes Norte-Americanos,um grupo sem filiação partidária. O setor manufatureiro é o mais importante para a economiadesses Estados, nos quais as fábricas de tecido e de móveis têmenfrentado a concorrência de empresas estrangeiras. O corte de 2.600 postos de trabalho em uma fábrica daMaytag localizada em Newton, Iowa, provocou indignação noEstado, afirmou Paul, cujo grupo defende políticas parafortalecer o setor nos EUA. "Um dos motivos pelos quais não se dá a atenção devida aisso --o que explica a dramática ascensão de Huckabee-- é que,entre os pré-candidatos republicanos, apenas Huckabee conseguiuidentificar-se com a ansiedade sentida pela população emrelação à economia e apenas ele conseguiu manifestar isso",disse Paul. Na quinta-feira, Huckabee, um ex-governador do Arkansas eministro batista, e Obama, senador pelo Estado de Illinois,venceram as prévias, o primeiro teste da campanha presidencialde 2008. Conquistar Iowa vinha sendo o foco central dospré-candidatos havia meses, mas, no fim de semana, os embatesvindouros ganharão cada vez mais destaque. Os resultados de quinta-feira, no entanto, diminuíram oleque de candidatos e obrigarão os sobreviventes a apresentaremde forma mais clara suas posturas. "Espero que não surja uma discurseira protecionista sóporque eles estão diante de um eleitorado apreensivo com asquestões econômicas", afirmou Cliff Waldman, economista daAliança de Fabricantes/Mapi. Questões que vão da guerra e do terrorismo aos produtosimportados de baixa qualidade alimentaram a ansiedade quanto àglobalização, e os eleitores passaram a prestar mais atenção nocusto provocado por esses problemas, disse Waldman. A integração de grandes países em desenvolvimento como aÍndia e a China no sistema mundial de comércio, segundoWaldman, significa que o cenário econômico dos EUA mudou e quejá não possui o mesmo peso quando das eleições presidenciaisanteriores. FURACÃO NA CLASSE MÉDIA Nenhum dos principais candidatos democratas deu apoio amedidas protecionistas --uso de impostos e de outras restriçõespara proteger as empresas nacionais. Mas os candidatos sugeriram que seu apoio ao livre comérciofaz-se acompanhar de limitações. A senadora Hillary Clinton, que ficou em um decepcionanteterceiro lugar em Iowa, disse que medidas severas de proteçãoaos trabalhadores e ao meio ambiente precisam integrar o núcleode todos os acordos comerciais. Obama afirmou compartilhar da frustração de algunseleitores com os acordos comerciais e que tornaria mais rígidasas leis relativas ao comércio e à qualidade dos produtos. No mês passado, o candidato prometeu suspender a importaçãode brinquedos da China devido à preocupação com a qualidadedeles. Mais tarde, Obama voltou atrás em sua declaração. "A expansão dos mercados globais pode ser algo positivo,mas apenas quando assinamos acordos que colocam em primeirolugar os trabalhadores dos EUA", disse o pré-candidato em umacarta de 26 de dezembro enviada à Campanha Comércio Justo deIowa. John Edwards, um ex-senador pela Carolina do Norte quebateu por poucos votos Hillary, em Iowa, costuma criticar emseus discursos o poder excessivo das empresas e afirmou que osacordos comerciais precisam ajudar os trabalhadores. "Eu vejo as dificuldades enfrentadas pela classe média, aperda de empregos, a possibilidade de desaparecerem, na próximadécada, 30 milhões de postos de trabalho. E eu encaro isso comoum problema pessoal", disse Edwards, em um discurso proferidoem Manchester, New Hampshire, na semana passada. O próximo líder dos EUA deverá ser, provavelmente, umdemocrata, opinou Jagdish Bhagwati, autor do livro "In Defenseof Globalization" (em defesa da globalização) e membro doConselho de Relações Exteriores. Bhagwati acrescentou que o próximo presidente pode começar2009 com uma dívida diante de alguns sindicatos e outras forçashostis à abertura comercial. "Eles terão feito tantas promessas, e há tantas pessoasinfiltradas nos cargos mais altos de aconselhamento, queaquelas forças exigirão sua recompensa", disse. "É com isso queestou preocupado." Pré-candidatos republicanos que tentam destacar-se, comoHuckabee, podem tentar conquistar eleitores de seu partidoafeitos à postura de cautela adotada pelos democratas emrelação à abertura comercial.

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