Por trás dos analistas militares, há a mão do Pentágono

Ex-oficiais contratados por emissoras para opinar sobre a guerra são instrumentos usados pelo governo Bush

David Barstow, The New York Times

20 de abril de 2008 | 16h17

No segundo semestre de 2005, a administração de Bush enfrentou uma onda de criticismo sobre Guantánamo. O centro de detenção tinha sido classificado como "o gulag de nossa época" pela Anistia Internacional, havia novas alegações de abuso feitas por advogados de direitos humanos, e os apelos para seu fechamento se acumulavam. Os experts em comunicações da administração responderam rapidamente. Numa manhã de sexta-feira, puseram um grupo de oficiais militares aposentados em um dos jatos usados normalmente pelo vice-presidente Dick Cheney e os levaram a Cuba para uma viagem cuidadosamente orquestrada. Ao público, estes homens eram membros de uma fraternidade familiar, apresentados milhares de vezes na TV e no rádio como "analistas militares", cujo trabalho os equipou para dar julgamentos com autoridade sobre os problemas mais candentes desde o 11 de Setembro. Escondido sob essa aparência de objetividade está um aparato do Pentágono que usa aqueles analistas para uma campanha com o objetivo de gerar cobertura favorável do desempenho da administração na guerra, mostra uma investigação do New York Times. O esforço, que começou nos dias que precederam a guerra do Iraque e que continua até hoje, procurou explorar alianças ideológicas e militares e também uma dinâmica financeira poderosa: a maioria dos analistas têm laços com as empresas militares envolvidas nas mesmas políticas de guerra que eles têm de analisar no ar. Esse relacionamento nunca é revelado aos telespectadores e, às vezes, nem às redes de TV. Mas, coletivamente, os homens a bordo do avião e vários outros analistas militares representam mais de 150 empresas militares como lobistas, executivos sênior, membros de conselhos ou consultores. As companhias incluem pesos-pesados da defesa, mas também várias companhias menores, tudo como parte de um vasto conglomerado de empresas lutando por centenas de bilhões de dólares em negócios militares gerado pela guerra ao terror. É uma competição furiosa, em que a informação interna e o acesso fácil aos funcionários seniores são altamente rentáveis. Registros e entrevistas mostram como a administração Bush tem usado seu controle sobre o acesso e a informação em um esforço para transformar os analistas em um tipo do cavalo de Tróia da mídia - um instrumento que pretende dar forma à cobertura do terrorismo de dentro das principais emissoras de rádio e TV. Os analistas obtiveram centenas de informações confidenciais com dirigentes militares seniores, inclusive oficiais com influência significativa sobre terceirização e questões orçamentárias, mostram os registros. Eles foram levados a excursões no Iraque e tiveram acesso a dados de inteligência confidenciais. Foram instruídos por funcionários da Casa Branca, do Departamento de Estado e do Departamento da Justiça, incluindo Cheney, Alberto Gonzales e Stephen Hadley. Em troca, os membros desse grupo reafirmaram pontos defendidos pelo governo, mesmo aqueles que eles suspeitavam serem falsos ou inflados. Alguns analistas reconhecem ter suprimido suas dúvidas porque temiam pôr em risco seu acesso a essas informações. Poucos expressaram arrependimento por participar do que consideravam um esforço para enganar o público americano com propaganda travestida de análise militar independente. "Era como se eles dissessem: precisamos levantar a sua mão e mover sua boca por vocês", disse Robert Bevelacqua, um boina verde aposentado e ex-analista da Fox. Kenneth Allard, um ex-analista militar da NBC que deu aulas sobre informação de guerra na National Defense University, disse que a campanha atingiu uma operação sofisticada da informação. "Esta é uma política ativa e coerente", disse ele. Enquanto as condições no Iraque deterioravam, Allard lembra, percebeu uma enorme distância entre as informações que os analistas e aquilo que as reportagens e os livros subseqüentes revelariam mais tarde. "Noite e dia", disse Allard, "eu senti que nós estávamos numa farsa." O Pentágono defende seu relacionamento com analistas militares, dizendo que tinham sido dadas somente informações factuais sobre a guerra. "A intenção e a finalidade disso não é nada senão uma tentativa séria de informar o povo americano", disse Bryan Whitman, um porta-voz do Pentágono. Whitman acrescentou que "é um bocado inacreditável" pensar que oficiais militares aposentados poderiam ser transformados em "fantoches do Departamento da Defesa". Muitos analistas negaram enfaticamente que tenham sido cooptados ou tenham permitido que interesses comerciais externos tenham afetado seus comentários, e alguns usaram sua posição para criticar a condução da guerra. Vários, como Jeffrey D. McCausland, um analista militar da CBS e lobista da indústria da Defesa, disseram ter mantido as redes de TV informadas sobre seu trabalho externo e recusaram tocar em questões comerciais em sua cobertura. "Eu não represento aqui a administração", disse McCausland. Alguns funcionários da emissora, porém, admitem conhecer somente uma parte da relação dos seus analistas com a administração. Disseram que, enquanto eram sensíveis aos potenciais conflitos de interesse, não cobram de seus analistas os mesmos padrões éticos que seus jornalistas a respeito dos interesses financeiros externos. O ônus da divulgação dos eventuais conflitos é dos analistas, disseram eles.

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