Pré-candidato republicano nos EUA crê em teorias apocalípticas

Líder nas pesquisas no Estado que abre a disputa pela candidatura republicana a presidente dos EUA, Ron Paul teme que a ONU assuma o controle sobre a emissão de dinheiro nos EUA.

ANDY SULLIVAN, REUTERS

26 de dezembro de 2011 | 17h54

Em campanha para o cáucus (assembleia eleitoral) de 3 de janeiro em Iowa, Paul tem alertado para a erosão das liberdades civis no país, para o risco de um colapso econômico semelhante ao da União Soviética, e para incidentes de violência nas ruas.

Paul, que tem 76 anos e é deputado pelo Texas, já escreveu um livro propondo o fim do Federal Reserve (Banco Central dos EUA), e insiste nessa tese durante a campanha. "Não só auditaremos o Federal Reserve, podemos também restringir o Federal Reserve", disse Paul nesta semana a cerca de cem admiradores nesta pequena cidade de Iowa.

O político também enfrenta questionamentos por causa de escritos racistas atribuídos a ele há duas décadas, mas que ele diz terem sido de autoria de "ghost writers".

Paul desponta como um azarão na corrida presidencial norte-americana, mas analistas dizem que suas ambições podem ser solapadas por suas ideias heterodoxas.

Ele defende, por exemplo, reduzir gastos de Defesa e retirar as tropas norte-americanas do exterior. Rivais republicanos dizem que essa postura isolacionista e antibelicista é perigosamente ingênua.

No âmbito econômico, analistas alertam que suas propostas - redução drástica de gastos públicos, eliminação do Federal Reserve e retomada do padrão ouro - fariam o país voltar à recessão.

"Paul atrai as pessoas cujo conhecimento das grandes questões é superficial, ele vê conspirações onde elas não existem", disse Greg Valliere, estrategista político da empresa de análises Potomac Research Group. "Se ele for bem em Iowa, o que é provável, será um enorme constrangimento para os republicanos."

Segundo as pesquisas, Paul disputa acirradamente a liderança em Iowa, e tem a campanha mais bem organizada. Seus comícios atraem partidários entusiasmados, e também indecisos. Seu discurso agrada desde simpatizantes do movimento direitista Tea Party até os esquerdistas do Ocupe Wall Street.

Mas, à esquerda, alguns eleitores ficam desanimados com sua defesa incondicional do livre mercado. Num evento de campanha nesta semana, ele levou uma eleitora às lágrimas ao defender que os planos de saúde sejam dispensados de cobrir doenças pré-existentes.

"É como se eu morasse na costa do Golfo (do México) e não contratasse um seguro até que eu visse um furacão", disse Paul, cuja base eleitoral foi devastada por um furacão em 2008.

A mulher que fez a pergunta disse que teve um câncer de mama tratado pelo plano, mas que várias amigas suas não tiveram a mesma sorte. "Eu vi três amigas morrerem por não terem seguro", disse Danielle Lin, registrada como eleitora democrata, mas que neste ano cogita apoiar um republicano. "Ninguém consegue pagar o seguro privado, ninguém consegue, e (quem não consegue) morre."

APOCALÍPTICO

Paul beira o apocalíptico quando alerta para os perigos do endividamento público e do enfraquecimento do dólar.

Ele traça paralelos entre a atual situação nos EUA e a época do colapso econômico e social da União Soviética. Sua proposta contra isso é cortar 1 trilhão de dólares dos gastos públicos, reduzindo o orçamento federal em mais de um terço, e fechando os ministérios de Educação, Energia, Comércio, Interior e Habitação.

Nesta semana, Paul disse que o Federal Reserve está fadado a "resgatar" a zona do euro, e que isso acabará levando os EUA a entregarem o controle da sua própria moeda à ONU.

"Essa crise monetária é bem conhecida dos banqueiros internacionais. Eles querem que a ONU venha resolver o problema", afirmou. "O dólar acabará se desintegrando e sendo assumido. Mas não quero que a ONU emita essa moeda."

Economistas observam que a proposta de reindexar o valor do dólar à cotação do ouro, algo que Paul há anos propõe, é que faria os EUA abandonaram o controle sobre a moeda.

"Continuaríamos tendo política monetária -ela seria estabelecida pelos garimpeiros da África do Sul e Uzbequistão, e não por burocratas em Washington", disse Michael Feroli, economista chefe do JPMorgan para os EUA.

"Se você gosta do que a Opep significa para o preço do petróleo, vai adorar o que o padrão ouro faria com os mercados financeiros."

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