Pedro Dória, estadao.com.br

26 de agosto de 2009 | 15h09

 

1. "Não espero jamais ver novamente um rosto em dor tão profunda", contou ao Boston Globe Frank Mankiewicz. Era o rosto do jovem senador Edward M. Kennedy na manhã de 5 de junho de 1968. A morte por assassinato de seu irmão Robert, candidato à presidência, havia sido anunciada à família havia minutos. Mankiewicz, filho do roteirista do filme Cidadão Kane, era secretário de imprensa de Bobby. Aos 36 anos, Ted tinha agora a obrigação de assumir o comando do clã.

 

O enterro demorou para acontecer. Da Califórnia, onde o candidato foi abatido, o corpo foi levado de avião para Nova York. Expuseram-no ao público na Catedral de St. Patrick por dois dias. Na noite do dia 7, véspera da viagem de trem a Washington que levaria o caixão para sua missa final e o cemitério, Ted passou a madrugada dirigindo pelas ruas de Manhattan. Ao seu lado estava o deputado democrata John Culver, um velho e fiel amigo da família. O jovem senador permaneceu as horas todas ao volante em silêncio, girando, girando.

 

Na Catedral de Washington, no dia 8, à missa fúnebre, Ted Kennedy subiu para ler a despedida da família ao irmão. "Meu irmão não deve ser idealizado, sua figura aumentada na morte além do que foi em vida", ele disse. "Deve ser lembrado apenas como um homem bom e decente, que viu o que era errado e tentou consertá-lo, viu sofrimento e tentou saná-lo, viu guerra e tentou pará-la." Engasgou apenas no final do discurso, um discurso feito com voz serena, atenta. Até então, ele era o irmão caçula de dois grandes oradores, John e Robert. Os EUA reconheceram em Ted um Kennedy naquele momento.

 

 

2. A festa era em homenagem à memória de Bobby, pouco mais de um ano após seu assassinato. Presentes várias moças, quase todas jovens, quase todas bonitas - gente das boas famílias da Nova Inglaterra. Ted era a estrela. O cenário, uma ilhota com nome indígena - Chappaquiddick, 'ilha descolada de outras'. Anos mais tarde, testemunhas lembrariam que álcool foi servido com fartura. Ted estava animado. Ia bem numa competição de regata, seu esporte favorito, era bem cotado para sair candidato à Presidência no futuro próximo.

 

Mary Jo Kopechne queria sair mais cedo - era quase meia-noite. Ted ofereceu-lhe uma carona de presto e pegou com seu motorista as chaves. Dispensou-o. Queria ir sozinho. Talvez porque tenha errado o caminho, talvez porque os dois tivessem mudado de ideia a respeito de para onde ir, Ted foi dar em uma ponte sem mureta ou cerca que protegesse. O carro mergulhou na água, Ted escapou. Mary Jo, não.

 

Ele só procurou a polícia no dia seguinte.

 

Condenado, perdoado, inocentado. Sempre negou que estivesse embriagado. Toda a influência da família foi investida no fim de seus problemas com a Justiça. A morte de Mary Jo, no entanto, e seu estranho comportamento nos dias seguintes, se firmariam como uma nódoa que impediria para o resto da vida suas chances de chegar à Casa Branca.

 

Ted era casado. Também seu casamento não duraria muito mais.

 

 

3. Foi em 1972 que Ted fez seu primeiro discurso no Senado contra Londres. Defendia os católicos irlandeses, republicanos - ele, um Kennedy, um católico de origem irlandesa, irmão de um presidente da primeira república moderna. Uma longa relação entre o senador e políticos norte-irlandeses teve início ali. Não perdia jamais a oportunidade de provocar: quando Margaret Thatcher aparecia nos EUA, Kennedy vestia gravata verde, símbolo irlandês.

 

Foi em 1994 que ele teve oportunidade de fazer a diferença. Gerry Adams, líder do partido Sinn Féin, ligado ao grupo terrorista IRA, queria viajar aos EUA. John Major, o conservador premiê britânico, era contra. Por tradição, a Casa Branca negaria o visto. Mas Kennedy foi ao telefone. Bill Clinton era um presidente jovem, com pouco tempo no poder, ainda hesitante na política internacional. Não foi na primeira conversa, nem na segunda - mas o velho político, já veterano, já chamado 'o leão do Senado', o convenceu. Adams foi aos EUA.

 

Demorou sete meses desde as conversas em Washington: o IRA anunciou o cessar-fogo. Não foram negociações simples, mas com o intermédio de Clinton, a paz veio. "Vejam quão longe vocês chegaram", disse em discurso aos nacionalistas da Irlanda em 1998. "Vocês são descendentes dos pioneiros que ajudaram a construir a América e, agora, são os pioneiros que construirão o futuro desta ilha."

 

Presente no momento certo, foi seu olhar que percebeu a oportunidade para a negociação de uma paz que por tanto tempo pareceu impossível.

 

 

4. Os analistas tinham poucas dúvidas: Hillary Clinton seria a primeira presidente mulher dos Estados Unidos. O poder dos Clinton sobre a máquina do Partido Democrata garantiria sua vitória nas primárias e, dada a impopularidade de George W. Bush, o candidato republicano tinha poucas chances.

 

Aí Ted Kennedy fez diferente. Num momento chave, início da campanha, quando Barack Obama acusava fragilidade, anunciou seu apoio. Os irmãos, John e Bobby, haviam juntos promovido o fim do racismo legal nos EUA dos anos 1960. Agora, Kennedy transformava uma aposta naquela que seria sua última grande jogada política. Promover um homem negro para a presidência.

 

Uns sugeriram que era por defesa. Sem herdeiros claros, uma presidência Hillary representava que uma nova família assumiria o posto dos Kennedy na política americana. Ted dizia que não. Explicava que via em Obama, pela primeira vez desde aquele distante 1968 do assassinato, alguém com peso e talento para representar o discurso de seus irmãos. Talvez. Naquele momento, seu apoio pareceu aos eleitores um passar da tocha, um ciclo que se fechava. E Obama foi eleito presidente.

 

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