Ron Sachs/Efe
Ron Sachs/Efe

Recuperação americana após crise financeira não é consenso

Pior da crise parece ter passado. Mas ainda há dúvidas sobre a qualidade da recuperação da economia

Nívea Terumi, do estadao.com.br,

16 de janeiro de 2010 | 19h09

O presidente americano Barack Obama assumiu o posto de 44º titular da nação mais rica do mundo sob muita expectativa e apreensão dos mercados. A chegada à Casa Branca de um candidato sem experiência no Executivo, cuja campanha presidencial havia sido marcada por um forte discurso de mudança, foi potencializada por dois fatos: o de os Estado Unidos estarem diante da maior crise financeira em sete décadas e o de estarem à frente de duas guerras (no Iraque e no Afeganistão). Obama assumiu o país com o maior endividamento público que um presidente americano já havia enfrentado, de cerca de US$ 10 trilhões. Atualmente, o montante supera a marca dos US$ 12 trilhões.

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Um ano depois, o pânico que dominou a cena americana em 2008 e 2009 parece ter passado. Mas ainda há dúvidas sobre a qualidade da recuperação da economia, que está sendo construída com base no aumento do déficit orçamentário (que foi de US$ 1,4 trilhão no ano fiscal de 2009 e deve ultrapassar o US$ 1,7 trilhão em 2010), inchado pelos muitos pacotes fiscais que vieram e que ainda podem vir, e pela queda da arrecadação em consequência da crise. Deflagrada com o estouro da bolha das hipotecas podres (subprime), a crise evidenciou não só a enorme alavancagem do setor financeiro americano, como também a dos próprios cidadãos, endividados principalmente por meio de cartões de crédito.

 

Para enfrentar tamanho desafio, o governo Obama não poupou os cofres públicos com o lançamento de medidas de incentivo econômico, que se aproximam do US$ 1 trilhão. Poucos dias após sua posse, em 20 de janeiro de 2009, Obama conseguiu aprovar seu primeiro grande pacote, no valor total de US$ 787 bilhões. Seguiram-se então outras medidas de auxílio aos setores automobilístico, bancário e de habitação.

 

Setor automobilístico

 

Após receber ajuda do governo ao final do mandato Bush, duas das grandes montadoras americanas tentavam se recuperar da dramática queda nas vendas internas e externas. A General Motors, a maior montadora mundial até então, sucumbiu à queda no faturamento, teve seu presidente, Rick Wagoner, demitido pelo próprio presidente Obama e foi estatizada - a empresa entrou em concordata, vendeu suas principais operações e marcas (como a Chevrolet e a Cadillac), ficou mais enxuta e foi resgatada pelo Tesouro, que se tornou seu controlador majoritário. Já a Chrysler teve de vender parte de seus ativos à Fiat, montadora italiana. Ambas tiveram suas ajudas condicionadas à diminuição do quadro de funcionários, além de reformarem seus gastos com despesas trabalhistas e diminuição de suas dívidas.

 

Setor bancário

 

As grandes instituições financeiras americanas não tiveram de enfrentar a mão de ferro do Estado da mesma forma que o setor automobilístico. Com o agravamento da crise, elas perderam credibilidade quanto à capacidade de honrar suas dívidas e, consequentemente, o crédito interbancário estancou. O problema maior estava nos chamados "ativos podres", lastreados em dívidas hipotecárias que perdiam valor a cada dia. Para liberar o crédito na economia e restaurar a confiança nos mercados, o governo assumiu esses ativos. A ideia era fortalecer os bancos e instituições financeiras que receberam o resgate do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês), de US$ 700 bilhões, ainda no governo Bush. Foi durante o governo Obama que a expressão too big to fail se popularizou, a qual se refere ao comprometimento não oficial de que toda instituição cuja falência fosse capaz de causar uma crise sistêmica deveria ser socorrida pelo Estado. Desde então, diversos bancos já devolveram ao Tesouro os recursos injetados, mas analistas do mercado identificaram fragilidades nos balanços divulgados.

 

Setor de habitação

 

A crise colocou milhões de americanos sob risco de perderem suas casas para os bancos. Em 2008, o número de execuções de hipotecas chegou a 2,2 milhões. A perda de valor dos ativos lastreados nas dívidas dos mutuários fez com que muitas delas ficassem maiores do que o valor de seus imóveis. Em março de 2009, Obama lançou um pacote de ajuda a mutuários de US$ 75 bilhões. Para analistas, no entanto, o programa não foi suficiente para evitar mais execuções, que continuam acometendo os mutuários americanos.

 

Regulação dos mercados

 

Um dos problemas mais apontados por analistas como causa de fundo da atual crise econômica é a falta de regulação do sistema financeiro. Em dezembro de 2009, o projeto que atualiza toda a regulamentação foi aprovado pela Câmara (falta ainda a aprovação do Senado). Entre as novas medidas estão a criação de um conselho que identifique e regulamente companhias que possam causar crise sistêmica; a criação de uma agência de proteção financeira a consumidores; e a regulamentação dos mercados de balcão dos derivativos. Em maio de 2009, o Congresso aprovou também a nova regulamentação encaminhada pelo Executivo para a indústria de cartões de crédito.

 

Perspectivas

 

Os Estados Unidos se inserem num cenário geopolítico diferente em 2010. O fortalecimento dos países emergentes (menos afetados pela crise global quando comparados com os países ricos) - especialmente da China - estremece a soberania dos americanos na economia mundial. Com uma queda do PIB projetada em -2,5% em 2009 e uma taxa de desemprego no nível recorde de 10% da população economicamente ativa, há muitas incertezas sobre como os Estados Unidos agirão após o auge da crise. O consumo interno dá sinais de melhora, mas a produção industrial continua em queda. Os juros básicos (Fed Funds) estão próximos de zero desde dezembro de 2008, o que fortalece a apreensão do mercado sobre como a economia americana reagirá quando o banco central e o Tesouro iniciarem o processo de enxugamento dos recursos que foram injetados ao longo da crise, situação que se repete na maioria dos países ricos.

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