Renúncia de indicado é fim de 'lua-de-mel' para Obama

Escândalo por problemas de fisco com nomeado para a saúde mostrou contradições em discurso de Obama

BBC Brasil, BBC

05 de fevereiro de 2009 | 07h47

A situação começou a parecer um tanto constrangedora para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ter um dos principais nomes indicados para o primeiro escalão de seu governo - o secretário do Tesouro, Timothy Geithner - envolvido em um problema com pagamento de impostos já era bastante ruim. Mas, quando foi revelado, na última sexta-feira, que o indicado para a pasta da Saúde, Tom Daschle, deixou de pagar cerca de US$ 130 mil ao fisco e que ele usava um carro com motorista fornecido por um sócio, um padrão de escolhas descuidadas para o gabinete de Obama parece ter vindo à tona.   Além disso, Daschle não era um indicado como os outros. O popular ex-líder da maioria no Senado foi, de muitas formas, uma espécie de mentor de Obama em Washington. Foi Daschle quem convenceu o jovem Barack Obama (que começou sua carreira no Senado no momento em que Daschle encerrava a sua) a não adiar sua candidatura à Casa Branca. Foi ele também quem forneceu a Obama informações importantes e indicações de pessoas - especialmente no caucus de Iowa, em janeiro de 2008 - que o ajudaram a chegar lá.   Esta proximidade explica, talvez, a reação inicial do presidente Obama e dos democratas do Senado em manter sua indicação, apesar das denúncias. Na última segunda-feira, Obama chegou a afirmar que apoiava Daschle "totalmente". A expectativa era de que, assim como ocorreu com o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, haveria um interrogatório, um pedido de desculpas, mas que a indicação seria aprovada pelo Senado no final das contas.   Era isso que parecia que iria acontecer depois que um Tom Daschle com ar disciplinado apareceu na noite de segunda-feira após um encontro com seus ex-colegas de Senado, que também fizeram questão de amenizar sua transgressão e afirmar que ele era o melhor nome para a pasta. Mas alguma coisa aconteceu durante a madrugada de segunda para terça-feira, quando Daschle apresentou sua desistência.   Apenas duas semanas após Obama ter assumido o cargo, começou a se formar uma percepção de que havia uma contradição entre a retórica do presidente sobre ética e lobbies e a realidade de suas escolhas. Depois de prometer uma nova era de responsabilidade e proclamar novas e duras regras a respeito do lobby em seu governo, as exceções começaram a se tornar regra. Além de Timothy Geithner, houve também uma concessão a William Lynn, o antigo lobista que foi escolhido para o cargo de vice-secretário da Defesa.   Quando a mídia começou a investigar a respeito dos negócios de Tom Daschle, surgiu a imagem de alguém que, apesar de não ser um lobista registrado, atuava em uma lucrativa área cinzenta depois de deixar o Congresso. Os contextos são bastante diferentes, mas, pelo menos em termos de percepção, começou a haver um paralelo desconfortável entre os executivos de Wall Street que ganharam bônus milionários - algo que Obama classificou como "vergonhoso" - e os senadores que apoiaram Daschle, um homem que ganhou milhões de dólares graças a seus contatos políticos.   A situação começou a parecer não apenas um descuido, mas hipocrisia. Em um editorial que pedia que Daschle retirasse sua candidatura ao cargo, o jornal New York Times se referiu a ele como um entre muitos políticos que atuam "confortavelmente entre o governo e a indústria". Um presidente que prometeu trazer mudança para Washington aparentemente estava defendendo o que ele chamou de "negócios de sempre" durante a campanha.   E ainda houve o caso de Nancy Killefer. Sua surpreendente desistência da indicação para chefiar o setor da Presidência responsável pela fiscalização de gastos públicos, justamente por causa de suas próprias transgressões em impostos, pode ter sido a gota d'água - se para a Casa Branca ou para Daschle, ainda não está claro.   Seja qual for o caso, apenas poucas horas depois do anúncio de Killerfer, Tom Daschle surpreendeu amigos e adversários também desistindo do cargo, apesar de apenas um senador - o republicano Jim DeMint - ter pedido para que ele o fizesse. Obama afirmou aceitar a decisão com "tristeza e pesar". E, apesar do alívio que deve ter havido na Casa Branca após um escândalo ter sido cortado pela raiz, a perda de Tom Daschle é um grande golpe para o presidente, tanto politicamente como pessoalmente.   É também um golpe para aqueles que defendem uma reforma no sistema de saúde dos EUA, já que o substituto de Daschle não deve ter o mesmo nível de acesso ao Salão Oval que ele teria. A importância da decisão tomada por Daschle na terça-feira vai passar com o tempo, mas este foi, sem dúvida, o pior dia de Obama no cargo até agora. Um dia que parece ter sido o fim de um período de lua-de-mel de um presidente que levou as expectativas sobre seu governo para um nível difícil de alcançar.   A situação começou a parecer um tanto constrangedora para o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. Ter um dos principais nomes indicados para o primeiro escalão de seu governo - o secretário do Tesouro, Timothy Geithner - envolvido em um problema com pagamento de impostos já era bastante ruim. Mas, quando foi revelado, na última sexta-feira, que o indicado para a pasta da Saúde, Tom Daschle, deixou de pagar cerca de US$ 130 mil ao fisco e que ele usava um carro com motorista fornecido por um sócio, um padrão de escolhas descuidadas para o gabinete de Obama parece ter vindo à tona.   Além disso, Daschle não era um indicado como os outros. O popular ex-líder da maioria no Senado foi, de muitas formas, uma espécie de mentor de Obama em Washington. Foi Daschle quem convenceu o jovem Barack Obama (que começou sua carreira no Senado no momento em que Daschle encerrava a sua) a não adiar sua candidatura à Casa Branca. Foi ele também quem forneceu a Obama informações importantes e indicações de pessoas - especialmente no caucus de Iowa, em janeiro de 2008 - que o ajudaram a chegar lá.   Esta proximidade explica, talvez, a reação inicial do presidente Obama e dos democratas do Senado em manter sua indicação, apesar das denúncias. Na última segunda-feira, Obama chegou a afirmar que apoiava Daschle "totalmente". A expectativa era de que, assim como ocorreu com o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, haveria um interrogatório, um pedido de desculpas, mas que a indicação seria aprovada pelo Senado no final das contas.   Era isso que parecia que iria acontecer depois que um Tom Daschle com ar disciplinado apareceu na noite de segunda-feira após um encontro com seus ex-colegas de Senado, que também fizeram questão de amenizar sua transgressão e afirmar que ele era o melhor nome para a pasta. Mas alguma coisa aconteceu durante a madrugada de segunda para terça-feira, quando Daschle apresentou sua desistência.   Apenas duas semanas após Obama ter assumido o cargo, começou a se formar uma percepção de que havia uma contradição entre a retórica do presidente sobre ética e lobbies e a realidade de suas escolhas. Depois de prometer uma nova era de responsabilidade e proclamar novas e duras regras a respeito do lobby em seu governo, as exceções começaram a se tornar regra. Além de Timothy Geithner, houve também uma concessão a William Lynn, o antigo lobista que foi escolhido para o cargo de vice-secretário da Defesa.   Quando a mídia começou a investigar a respeito dos negócios de Tom Daschle, surgiu a imagem de alguém que, apesar de não ser um lobista registrado, atuava em uma lucrativa área cinzenta depois de deixar o Congresso. Os contextos são bastante diferentes, mas, pelo menos em termos de percepção, começou a haver um paralelo desconfortável entre os executivos de Wall Street que ganharam bônus milionários - algo que Obama classificou como "vergonhoso" - e os senadores que apoiaram Daschle, um homem que ganhou milhões de dólares graças a seus contatos políticos.   A situação começou a parecer não apenas um descuido, mas hipocrisia. Em um editorial que pedia que Daschle retirasse sua candidatura ao cargo, o jornal New York Times se referiu a ele como um entre muitos políticos que atuam "confortavelmente entre o governo e a indústria". Um presidente que prometeu trazer mudança para Washington aparentemente estava defendendo o que ele chamou de "negócios de sempre" durante a campanha.   E ainda houve o caso de Nancy Killefer. Sua surpreendente desistência da indicação para chefiar o setor da Presidência responsável pela fiscalização de gastos públicos, justamente por causa de suas próprias transgressões em impostos, pode ter sido a gota d'água - se para a Casa Branca ou para Daschle, ainda não está claro.   Seja qual for o caso, apenas poucas horas depois do anúncio de Killerfer, Tom Daschle surpreendeu amigos e adversários também desistindo do cargo, apesar de apenas um senador - o republicano Jim DeMint - ter pedido para que ele o fizesse. Obama afirmou aceitar a decisão com "tristeza e pesar". E, apesar do alívio que deve ter havido na Casa Branca após um escândalo ter sido cortado pela raiz, a perda de Tom Daschle é um grande golpe para o presidente, tanto politicamente como pessoalmente.   É também um golpe para aqueles que defendem uma reforma no sistema de saúde dos EUA, já que o substituto de Daschle não deve ter o mesmo nível de acesso ao Salão Oval que ele teria. A importância da decisão tomada por Daschle na terça-feira vai passar com o tempo, mas este foi, sem dúvida, o pior dia de Obama no cargo até agora. Um dia que parece ter sido o fim de um período de lua-de-mel de um presidente que levou as expectativas sobre seu governo para um nível difícil de alcançar.

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