Rice e Cheney aprovaram tortura, diz Senado dos EUA

Funcionários graduados aprovaram uso de técnicas duras, diz relatório; CIA desconhecia origem dos métodos

Agências internacionais,

23 de abril de 2009 | 11h35

Altos funcionários da admisnitração de George W. Bush revisaram e aprovaram em meados de 2002 que a Agência Central de Inteligência (CIA) usasse métodos duros de interrogatório, entre eles a simulação de afogamento, segundo aponta um detalhado relatório do Senado. O documento lista os membros do governo Bush que estavam presentes quando o diretor da CIA explicou exatamente quais métodos de interrogatório seriam usados, entre eles a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice e o ex-vice-presidente Dick Cheney.

 

Rice deu sua aprovação quando, como assessora de Segurança Nacional de Bush, se encontrou em 17 de julho de 2002 com o então diretor da CIA, George Tenet. Segundo o relatório, ela disse que "a CIA poderia levar adiante o interrogatório de Abu Zubeida" desde que com aprovação do Departamento de Justiça. Segundo o jornal Washington Post, Zubeida foi capturado no Paquistão em março de 2002. Ele foi o primeiro detido de alto valor sob custódia da CIA e a agência acreditava que o integrante da Al-Qaeda tinha "informações sobre iminentes ameaças", indicou o relatório.

 

Rice e outros quatro funcionários do governo foram informados em março de 2002 pela primeira vez sobre os "métodos alternativos de interrogatório, incluindo a simulação de afogamento", de acordo com o documento. Em julho de 2003, a CIA comunicou o uso da simulação de afogamento a Rice, ao então secretário de Justiça, John Ashcroft, ao vice-presidente Dick Cheney, ao conselheiro da Casa Branca Alberto Gonzalez e ao assessor legal do Conselho de Segurança Nacional John Bellinger. Eles "reafirmaram que o programa da CIA estava dentro da lei e refletia a política do governo".

 

Os EUA já haviam capturado Khalid Sheikh Mohammed, autoproclamado mentor dos ataques do 11 de Setembro, que passou 183 vezes pela simulação de afogamento em março de 2003. O então secretário de Estado, Colin Powell, e o então secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, foram informados sobre o programa em setembro de 2003.

 

Origem das técnicas

 

O uso de técnicas violentas de interrogatório contra suspeitos de terrorismo começou depois que chefes da Agência Central de Inteligência (CIA) foram seduzidos pela ideia de que poderiam ser mais duros sem correr o risco de ter problemas legais. Eles acreditavam estar usando métodos aprendidos durante o treinamento militar. Como aquilo poderia ser tortura? Numa série de reuniões de alto nível, em 2002, sem uma única discordância de membros do gabinete ou de congressistas, os EUA adotaram, pela primeira vez, os métodos violentos de interrogatório que sempre haviam condenado.

 

Esse extraordinário consenso foi possível, como mostra um estudo do New York Times, em grande parte porque nenhum envolvido – nem os dois funcionários graduados da CIA que estavam promovendo o programa, os assessores do presidente George W. Bush, ou os líderes dos comitês de inteligência do Senado e da Câmara – investigou as origens abjetas das técnicas que eles estavam aprovando quase sem debate.

 

Segundo diversos ex-funcionários de alto escalão envolvidos nas discussões há sete anos, eles não sabiam que o programa de treinamento militar, chamado Sere (sigla em inglês para Sobrevivência, Evasão, Resistência e Fuga) havia sido criado décadas antes para dar a pilotos e soldados americanos uma amostra de métodos de tortura usados por comunistas na Guerra da Coreia, métodos que haviam arrancado confissões falsas de americanos.

 

Mesmo o diretor da CIA, George Tenet, que insistiu em dizer que a agência havia pesquisado exaustivamente a proposta antes de repassá-la a outros funcionários, não conseguiu examinar a história do método mais chocante – a técnica de simulação de afogamento. Os funcionários informados por ele não ficaram sabendo que atos de simulação de afogamento tinham sido condenados nos EUA em julgamentos por crimes de guerra após a 2ª Guerra e eram as técnicas favoritas – todas, bem documentadas – de regimes despóticos desde a Inquisição espanhola. Uma tábua de afogamento usada no tempo de Pol Pot (antigo líder do Khmer Vermelho entre 1976 e 1979) chegou a ser exibida no museu do genocídio no Camboja.

 

Eles não sabiam que alguns veteranos, instrutores do próprio programa Sere, haviam advertido em memorandos internos que, questões morais à parte, os métodos eram simplesmente ineficazes. O processo foi "uma tempestade perfeita de ignorância e entusiasmo", disse um ex-agente da CIA.

 

Hoje, questionados sobre como isso pôde acontecer, funcionários do governo Bush distribuem acusações. Alguns culpam a CIA, enquanto ex- funcionários da agência culpam, por sua vez, o Departamento de Justiça ou a Casa Branca.

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