Rússia inicia retirada da Geórgia; Otan exige mais

Uma coluna de tanques e veículosblindados da Rússia deixou a estratégica cidade georgiana deGori, na terça-feira. Insatisfeita, a Organização do Tratado doAtlântico Norte (Otan) declarou que paralisaria os contatos como governo russo enquanto Moscou não retirar todas as suasforças da Geórgia. Potências ocidentais lideradas pelos EUA exigiram aretirada imediata de todas as forças russas da região centralda Geórgia, conforme prevê um cessar-fogo que colocou fim a dezdias de combate em torno da região rebelde da Ossétia do Sul. Ministros dos países-membros da Otan, em uma reunião deemergência realizada em Bruxelas, acataram a recomendaçãosuspendendo os contatos. No entanto, ao contrário do queesperava o governo georgiano, a aliança militar não adotoumedidas para fazer desse país do mar Negro um integrante dosseus quadros. Segundo o governo da Rússia, o presidente russo, DmitryMedvedev, disse que as forças de seu país, até o dia 22 deagosto, regressariam às posições determinadas pelo cessar-fogoelaborado com a ajuda da França. Isso significa que a maior parte dos soldados voltaria paraa Rússia ou para a Ossétia do sul. No entanto, parte das forçasrussas, segundo o acordo, continuará em uma zona de proteçãocriada ao redor da região separatista. "Até o dia 22 de agosto, uma parte das forças de paz serárecuada para a zona temporária de segurança", afirmou Medvedevao presidente francês, Nicolas Sarkozy, em um telefonema. Oconteúdo da conversa foi divulgado pelo governo russo. "O contingente remanescente que foi utilizado para reforçaras tropas de paz será recuado para o território da Ossétia doSul e da Rússia", afirmou o comunicado. Autoridades norte-americanas disseram não ter identificadoaté agora nenhuma manobra substancial de retirada por parte daRússia. Em Gori, uma cidade estratégica localizada à beira daprincipal estrada que liga as regiões leste e oeste da Geórgia,seis veículos blindados russos, três tanques e dois outrosveículos locomoveram-se pela zona rural de Gori, levantandonuvens de poeira. "Essa é uma das primeiras unidades a retirar-se", afirmouuma autoridade do Ministério das Relações Exteriores da Rússiaque convidou repórteres a testemunharem a movimentação. No entanto, perto dali, podia-se ver soldados russoscavando trincheiras perto de peças de artilharia.Pára-quedistas sem camiseta tomavam banho de Sol em uma rua dacidade, deitados em sofás. Horas depois, ainda na terça-feira, um repórter da Reutersque viajava pela principal estrada usada pelos russos paraentrar em Gori, viu poucos veículos saindo da Geórgia e poucossinais de uma retirada de larga escala. Questionado sobre se os russos estavam se retirando, ShotaUtiashvili, membro do Ministério do Interior da Geórgia,respondeu: "As unidades russas vão para Tskhinvali (capital daOssétia do Sul) desde Gori e depois regressam. Eu negocategoricamente o fato de estar havendo uma retirada dessasproporções". O conflito eclodiu quando a Geórgia, nos dias 7 e 8 deagosto, enviou suas forças para tentar retomar o controle sobrea Ossétia do Sul, uma Província rebelde aliada dos russos. ARússia respondeu com uma larga contra-ofensiva. TENSÕES Intensificando a pressão sobre o governo georgiano, osrussos fecharam sua fronteira com a Geórgia e o vizinhoAzerbaijão para cidadãos que não pertencem à Comunidade dosEstados Independentes (CEI), a qual reúne ex-RepúblicasSoviéticas. Na semana passada, os georgianos haviam anunciadosua retirada da CEI. O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, afirmou que ofechamento da fronteira era uma medida necessária para "evitaro tráfico de armas e a entrada de membros de grupos terroristasestrangeiros na Rússia". Alexander Bortnikov, chefe do principal serviço interno deinteligência do país (FSB), deu ordens para que seu aparatoimpeça a concretização de um suposto plano das forças desegurança georgianas de realizar "atos terroristas" dentro daRússia. A Geórgia considerou a acusação "absurda". Já foram interrompidas as ligações por ar, mar e ferroviaentre a Rússia e seu antigo satélite soviético. O bloqueiovirtual está prejudicando a economia georgiana, que dependeprofundamente dos russos. Potências ocidentais avaliaram como desproporcional aresposta da Rússia à investida georgiana. Já o governo russodisse que a medida foi necessária para proteger os cidadãos eas forças de paz da Rússia na Ossétia do Sul e para impedir aGeórgia de realizar um "genocídio". A campanha militar russa rendeu popularidade ao governodentro do país, mas piorou as relações dele com os EUA. A Marinha da Rússia cancelou uma visita que seria realizadaem setembro por uma fragata norte-americana, fazendo desse osinal mais recente do atual embate. A medida foi adotada depoisde os EUA terem, na semana passada, se retirado de um exercícionaval a ser realizado no Pacífico com a Rússia e com outrosdois países. Em um raro sinal de cooperação, a Rússia e a Geórgiaconseguiram trocar prisioneiros na terça-feira, perto dovilarejo de Igoeti (região central do território georgiano), acerca de 45 quilômetros de Tbilisi. PRESSÃO SOBRE SAAKASHVILI Segundo alguns analistas, Moscou pode adiar a retirada desuas forças a fim de manter sob pressão econômica e social opresidente georgiano pró-EUA, Mikheil Saakashvili. O governo de Saakashvili determinou a restrição do acesso ameios de comunicação e sites russos, afirmando que a medidavisava evitar que os georgianos ficassem indignados com apropaganda feita pela Rússia. O ministro russo das Relações Exteriores, Sergei Lavrov,criticou a medida. "Vocês, provavelmente, podem ver com ospróprios olhos o que é a democracia do Estado georgiano e quema está minando", afirmou. Segundo Lavrov, a Rússia não tinha planos de ocupar aGeórgia ou de anexar partes de seu território. Todavia, postos de controle russos bloqueiam atualmente aprincipal estrada de ligação leste-oeste da Geórgia, uma rotavital que conecta Tbilisi com os portos georgianos do marNegro. Soldados russos ingressaram também em cidades do oeste daGeórgia, controlando o tráfego e a movimentação de pessoas ali. (Reportagem adicional de Margarita Antidze, em Igoeti;Ralph Boulton, em Tbilisi; Aydar Buribaev e Christian Lowe, emMoscou)

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