Sob pressão da China, Obama direciona foco para América Latina

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, viaja para a América Latina nesta semana em busca de reafirmar a liderança econômica dos EUA numa região onde Washington enfrenta uma crescente concorrência com a China.

MATT S, REUTERS

16 de março de 2011 | 15h09

Em sua primeira viagem ao sul da fronteira em quase dois anos, Obama visitará uma região onde muitos duvidam que um presidente preocupado com os problemas internos e as crises no Oriente Médio e no Japão tenha muito a oferecer à América Latina, que cada vez mais busca uma voz independente.

Entre 19 e 23 de março, Obama passará pelo Brasil, maior potência regional, pelo Chile, que é um caso de sucesso das práticas de livre mercado, e pelo pequeno El Salvador.

O desafio de Obama será convencer os latino-americanos de que, em lugar de ser o "quintal" dos EUA, a América Latina é vista como uma prioridade para o comércio e o investimento, num momento em que a China está tomando a iniciativa na região.

A viagem também tem importantes implicações políticas domésticas. A Casa Branca descreve a América Latina como um mercado fértil para maiores exportações, o que geraria empregos nos EUA - algo que será crucial para Obama na disputa pela reeleição no ano que vem.

Mas a América Latina, com um crescimento econômico bem superior à recuperação dos EUA, está se diversificando economicamente e mostrando que não está mais disposta a seguir os ditames de Washington.

"Não podemos ignorar o Hemisfério Ocidental, nem podemos tomá-lo como certo, porque outras pessoas estão se movendo de forma muito rápida e eficaz", disse Eric Farnsworth, vice-presidente do Conselho das Américas.

EXPECTATIVAS FRUSTRADAS

Obama criou grande expectativa ao prometer na Cúpula das Américas de 2009, em Trinidad, uma "parceria entre iguais" com a América Latina, baseada no respeito mútuo e em valores compartilhados.

Foi uma bem vinda mudança de tom num relacionamento tantas vezes marcado, durante o século 20, pela interferência militar e econômica dos EUA, passando à negligência na última década, depois que muitos países latino-americanos fizeram a transição do regime militar para a democracia.

Embora a imagem de Washington tenha melhorado em comparação com os piores momentos da era Bush, e Obama permaneça pessoalmente popular na América Latina, os avanços diplomáticos não se concretizaram - e nem mesmo as esperanças de flexibilização significativa no antigo embargo dos EUA contra Cuba, ou de reforma das leis norte-americanas de imigração.

Houve frustração também com o fracasso de Obama até agora em conseguir a aprovação do Congresso para acordos comerciais com a Colômbia e o Panamá, e sobre a reação de Washington - vista por muitos como confusa - ao golpe de 2009 em Honduras.

Preocupado com as crises no exterior, com a batalha orçamentária no Congresso e com a sua própria reeleição, Obama parece ter relegado a América Latina à parte de baixo da sua agenda, embora a Casa Branca insista que ele se mantém "profundamente engajado", reunindo-se regularmente com líderes da região em cúpulas mundiais.

"Os outros países querem muito ver os EUA envolvidos em assuntos econômicos internacionais e demonstrar liderança", disse Mike Froman, assessor de segurança nacional de Obama, a jornalistas antes da viagem. "Eu acho que o presidente tem feito isso."

As autoridades dos EUA esperam que a viagem de Obama - a mais extensa à região desde que ele assumiu o cargo - tranquilize os vizinhos mais próximos dos Estados Unidos e ajude a fortalecer os laços.

NOVA REALIDADE

Embora a visita tenha sido adoçada com o fechamento de negócios e com acordos secundários, ela renderá mais em simbolismo do que em substância. Mas também será o marco de uma era em que a inquestionável supremacia econômica dos EUA terminou.

China e Índia, com seu enorme apetite por matérias primas, têm sido cruciais para o crescimento latino-americano, tornando a região menos dependente do vizinho do norte.

O reconhecimento dessa tendência se reflete na escolha do Brasil, maior economia regional e potência mundial emergente, com principal etapa da viagem.

Ele quer aproveitar a chance para fazer uma reaproximação, após a chegada da presidente Dilma Rousseff ao poder em janeiro, segundo autoridades norte-americanas. Durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva os dois países registraram tensões, especialmente por conta da posição brasileira em relação ao Irã.

Desde que tomou posse, a pragmática Dilma tem também buscado essa reaproximação, ao mesmo tempo em que se afasta de líderes antiamericanos, como o venezuelano Hugo Chávez. No entanto, ela deve insistir com Obama para que isso gere resultados.

A China já ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil, e o governo Obama está determinado a usar a viagem para defender os interesses dos

EUA.

"Esta viagem é fundamentalmente sobre a recuperação dos EUA, as exportações dos EUA, e a relação crítica que a América Latina desempenha no nosso futuro econômico e nosso mercado de trabalho", disse Froman.

Mas ele deixou claro que a China vai ser objeto de discussão entre Obama e Dilma, especialmente as preocupações de ambos os governos a respeito da subvalorização do iuan.

Já a visita ao Chile é um reconhecimento a um país que, com apoio dos EUA, seguiu um modelo de livre mercado e estabilidade desde a sua redemocratização. Em Santiago, Obama fará um pronunciamento político à América Latina.

O contraponto político ao Chile, governado pela centro-direita, será a escala em El Salvador. Seu recém-empossado governo é liderado por membros de um antigo movimento rebelde de esquerda, que esteve no lado oposto ao de Washington durante a guerra civil no país, mas hoje busca uma aproximação com os Estados Unidos.

O itinerário de Obama, portanto, passa a mensagem de que ele quer evitar enxergar a América Latina pelo prisma ideológico que prevalecia sob seu antecessor, o republicano George W. Bush.

Mas, embora a visita a El Salvador também deva tratar de questões como a pobreza e os reflexos da guerra às drogas no México, há poucas expectativas quanto a novos compromissos de ajuda, devido a restrições de orçamento dos EUA.

Pode haver ainda ressentimentos em países que não serão visitados por Obama. A imprensa argentina, por exemplo, tem tratado a escolha de dois vizinhos pró-mercado do país como uma esnobada na presidente Cristina Kirchner e sua política econômica intervencionista.

(Reportagem adicional de Alister Bull em Washington, Brian Winter em São Paulo, Simon Gardner em Santiago, Helen Popper em Buenos Aires, Daniel Wallis em Caracas, Jeff Franks em Havana)

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