Testemunha relembra teste atômico que afetou região dos EUA

Por Dennis J. Carroll

REUTERS

10 de agosto de 2010 | 10h24

SANTA FÉ, Novo México, 10 de agosto (Reuters Life!) - Durante o período em que era um jovem soldado norte-americano na Guerra da Coreia, Jim Madrid lembra de ter visitado o Japão em 1950 e caminhado pelos escombros deixados pela bomba atômica dos EUA contra Hiroshima cinco anos antes.

"Umas crianças pequenas vieram e me chutaram nas pernas, gritando 'Buta kitanai, buta kitanai' -- Porco sujo, porco sujo", relembra Madrid. "Volte para casa, volte para casa", diziam.

Mas o que as crianças de Hiroshima não sabiam era que apenas dias antes de a bomba explodir em sua cidade o próprio Madrid havia sido vítima do que, em essência, foi um ataque nuclear surpresa realizado pelos Estados Unidos contra os moradores no sul de Novo México.

"Foi na manhã do dia 16 de julho, de 1945", disse Madrid à Reuters, em uma entrevista recente. "Eu tinha 13 anos e estávamos a caminho do trabalho na base (Halloman, da Força Aérea). Os soldados de lá costumavam dar pequenos trabalhos às crianças, e minha mãe e meu irmão trabalhavam na cozinha."

Madrid, hoje com 78 anos, lembra de ter se espremido para dentro do carro com o irmão Phil, a mãe, que estava dirigindo, e duas outras mulheres, em direção a oeste de Alamogordo, onde os Madrids moravam.

Pouco depois de atravessar uma ponte sobre uma ferrovia, Madrid diz que viu "uma luz enorme, enorme, se aproximando do norte. Subiu para os céus, tão luminoso, tão extremamente luminoso."

A ascendente bola de fogo era "a maior coisa que já tinha visto na minha vida. Estava rolando, ficando mais rápida, maior e mais alta."

"Minha mãe disse: "O sol está se aproximando. O mundo está chegando ao fim." Ela disse para cair de joelhos, mas eu fiquei olhando. Se fosse o fim do mundo, eu queria ver. Eu estava esperando que Deus saísse por detrás da bola de fogo."

O que Madrid e outros testemunharam foi a primeira explosão de uma bomba atômica, que explodiu no local de teste do Trinity, do Projeto Manhattan, cerca de 56 quilômetros a sudeste de Socorro, em Novo México, atualmente o Campo de Mísseis de White Sands.

Madrid acha que ele estava a cerca de 48 quilômetros da explosão.

PROBLEMAS DE VISÃO

Madrid, que hoje vive em Denver, contou que durante semanas ou meses e meses -- "Não tenho certeza agora" -- sua visão ficou distorcida e ele conseguia apenas ver pessoas e objetos como se olhasse através de um raio-X.

Apesar de a visão em negativo ter se recuperado, Madrid disse que sua vista continuou debilitada. Ele também sofreu de uma alergia na pele em quase todo o corpo que médicos nunca conseguiram explicar.

Sua mãe e outros parentes morreram de câncer na tiróide.

Cerca de 38 mil pessoas estavam em um raio de quase 100 quilômetros do Trinity, segundo um censo de 1940, mas ninguém recebeu um alerta antes do teste atômico ou do efeito nuclear após a explosão, disse Tina Cordova, líder de uma associação que organizou em 16 de julho um encontro de moradores da região próxima ao lugar do teste. Ninguém foi retirado do local.

Centenas de milhares de pessoas sofreram ou morreram de câncer induzido pela radiação e outras doenças, e não é incomum que famílias da região tenham perdido filhos com leucemia e outros tipos de câncer, disse ela.

(Editing by Steve Gorman)

Tudo o que sabemos sobre:
EUABOMBATRINITY*

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.