Ação contra Clarín leva tensão a jornalistas do grupo

Indignados, funcionários compararam ação a medidas da época da ditadura argentina

Ariel Palacios, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2009 | 08h01

A grande concentração de fiscais do Fisco argentino na frente da sede do grupo jornalístico Clarín, que edita o principal jornal do país, causou tensão e indignação entre funcionários da empresa. "Desde a volta à democracia, nunca vi uma ação parecida", afirmou Hermenegildo Sábat, de 76 anos, um dos mais respeitados e conhecidos caricaturistas da Argentina. "Nem durante a ditadura (de 1976 a 1983) houve uma fiscalização tão ostensiva e tão intimidatória."

 

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Segundo os jornalistas da redação do Clarín, os cerca de 200 agentes da Receita foram chegando a pé e aos poucos até o edifício do jornal. "Acredito que nem todos são fiscais", disse ao Estado a colunista de economia Silvia Naishtat. "Muitos vieram até aqui apenas para dar volume à operação, impressionar e intimidar."

 

"Negamos que se trate de alguma espécie de campanha de intimidação", disse um dos fiscais que participavam da operação da Receita, assegurando de que se tratava de um "procedimento normal".

 

Segundo a fonte, os fiscais foram enviados à sede do Clarín porque teriam sido detectadas "inconsistências" em suas declarações de renda.

 

Ainda de acordo com a fonte, o grande número de agentes era necessário para que fosse possível entrevistar cada um dos funcionários responsáveis pela declaração de impostos do grupo.

 

O editor-geral adjunto do jornal, Ricardo Roa, disse que o grupo recebeu a garantia do diretor da Receita, Ricardo Echegaray, de que nenhuma operação específica havia sido autorizada, quase todos os homens da Receita foram autorizados a entrar no setor de contabilidade da empresa . Por cerca de uma hora, os fiscais reviraram e levaram livros contábeis e conversaram com funcionários do setor. A princípio, segundo o grupo, nenhuma irregularidade ou autuação foi relatada.

 

Imitação

 

"A verdade é que os Kirchners estão ficando muito parecidos com (o presidente venezuelano, Hugo) Chávez", declarou Roa, referindo-se ao contínuo assédio do líder bolivariano aos meios de comunicação de seu país. "Num caso como esse, a comparação com Chávez é inevitável."

 

Roa afirma que o normal nesse tipo de operação é a participação de quatro a seis agentes. Nunca 200. "Eu não sei como nem quando isso vai terminar", declarou o caricaturista Sábat, que no ano passado, no auge do confronto entre a presidente Cristina Kirchner e líderes ruralistas, foi chamado de "semimafioso" pela líder.

 

"O problema é que esse pessoal é pragmático", prossegue Sábat. "Fico preocupado não por mim, mas por minha mulher, filhos e netos."

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