Ação contra RCTV recompensa magnata

Manobra de Chávez pode tornar dono de emissora concorrente o mais rico do país

Efe, Agencia Estado

21 Junho 2007 | 13h08

O fechamento da rede venezuelana RCTV, que fazia críticas ao governo de Hugo Chávez, pode significar uma dádiva para o dono da emissora concorrente, na forma de milhões de dólares em faturamento publicitário. Esse dinheiro pode fazer o magnata Gustavo Cisneros retomar o título de homem mais rico da Venezuela, que ele atualmente compartilha com Lorenzo Mendoza, com um patrimônio avaliado em US$ 6 bilhões cada. Mendoza produz cerveja, enquanto Cisnero é dono de vários veículos de comunicação, inclusive a rede Venevisión. Na lista de 2006 da revista Forbes, Cisneros estava "apenas" US$ 100 milhões à frente de Mendoza. Em 2005, a diferença era próxima de 1 US$ bilhão. "Gustavo quer ser o número 1, é realmente importante para ele", disse, pedindo anonimato, um empresário de Caracas ligado à família Cisneros. "E agora ele tem uma oportunidade." Em termos de audiência e faturamento publicitário, a Venevisión sempre ficou atrás da RCTV, rede mais antiga do país. Durante anos, ambas foram duras com Chávez, que acusou Cisneros e o diretor-geral da RCTV, Marcel Granier, de envolvimento no frustrado golpe que tentou derrubar o presidente em 2002. O que aconteceu desde então ilustra como parte da elite local aprendeu a co-existir e prosperar sob Chávez e sua "revolução socialista". Em 2004, após uma reunião entre Chávez e Cisneros promovida pelo ex-presidente dos EUA Jimmy Carter, a Venevisión deixou de fazer oposição escancarada ao governo. A RCTV manteve as críticas. Em maio deste ano, o governo renovou a concessão da Venevisión por mais cinco anos, enquanto deixou a da RCTV expirar. A decisão foi vista por muitos dentro e fora do país como uma afronta à liberdade de expressão. Mas estão em jogo também mais de US$ 250 milhões por ano em publicidade. "Ao todo, o dinheiro gasto em publicidade na TV totaliza cerca de US$ 600 milhões", disse Granier em uma recente entrevista. "Tínhamos a maior participação. Não é difícil adivinhar para onde essa participação irá." A RCTV faturava cerca de US$ 280 milhões por ano em publicidade. Especialistas dizem que é cedo para estimar como ficará o mercado, mas uma pesquisa do instituto Datos disse que 44,7% dos entrevistados citam a Venevisión como seu canal preferido após o fim da RCTV. Em segundo, com 32,5% das preferências, vêm a Globovisión, canal de notícias com críticas freqüentes ao governo, que também sofre ameaças de fechamento por parte de Chávez. Apesar das relações atualmente abaladas entre Granier e Cisneros, ambos são ligados por laços familiares, algo típico do mundo a que Chávez costuma se referir como "a oligarquia". Os dois magnatas da mídia são casados com primas, oriundas da família Phelps, cujo patriarca fundou o conglomerado que incluía a RCTV. As ligações da elite local foram novamente expostas quando Thor Halvorssen, ativista de direitos humanos e adversário de Chávez, publicou um artigo no New York Post contrapondo Granier e Cisneros - "um heróico, outro covarde". Criticado no artigo pela guinada editorial, o canal de Cisneros respondeu numa carta ao jornal norte-americano, negando que tenha havido um acordo sob a mediação de Carter. A carta era assinada por Antonieta López, vice-presidente do Grupo Cisneros. Ela vem a ser tia e madrinha de Halvorssen. Ambos são parentes distantes do bilionário da cerveja que agora divide o título de homem mais rico da Venezuela com Cisneros.

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