Acusada, juíza deixa caso e 'escândalo da mala' se agrava

Marta Novatti pediu para deixar o caso depois de ser acusada de classificá-lo como incidente administrativo

Agências internacionais,

10 de agosto de 2007 | 20h34

A juíza responsável por investigar a tentativa de entrada de um cidadão venezuelano com US$ 800 mil dólares não declarados na Argentina abandonou o caso nesta sexta-feira, 10, alegando "razões de decoro e delicadeza".  Veja Também Venezuelano quer explicar dinheiro não-declarado na Argentina  A decisão da magistrada traz um novo elemento para a polêmica que pode atrapalhar a candidatura de Cristina Fernández de Kirchner, esposa do presidente Néstor Kirchner e principal concorrente à sucessão presidencial. Batizado de "escândalo da maleta" pela imprensa argentina, o incidente começou na madrugada do sábado, 4, quando um avião alugado pela empresa estatal Enarsa, da Argentina, pousou no país vindo de Caracas. A bordo dele havia funcionários da empresa e do governo argentino, da petrolífera venezuelana PDVSA e Guido Alejandro Antonini Wilson, o venezuelano que levava a maleta. Segundo o diário argentino El Clarín, a juíza Marta Novatti pediu para deixar o caso depois de ser criticada por funcionários do governo. Ainda de acordo com o jornal, Novatti teria ficado sabendo do episódio ao meio-dia de domingo, mas não abriu um processo porque a Aduana à havia informado que não houvera uma tentativa de ocultamento do dinheiro por parte de Antonini.  No entanto, continua o Clarín, a Aduana argumenta que a juíza ordenou investigar o caso como um incidente administrativo, e a responsabilizou por não ordenar a detenção do empresário. Em seu pedido para não presidir o caso, a juíza nega as manifestações da Aduana.  Por sua vez, a promotora María Luz Rivas Diez disse nesta sexta-feira que "um dos elementos" que a levou a denunciar Antonini penalmente por contrabando foi o fato de ele ter dito inicialmente que carregava "livros" na maleta que continha o dinheiro. Mesmos argumentos O escândalo detonado pela descoberta da maleta de dinheiro provocou a demissão, na quinta-feira, de Claudio Uberti, um funcionário argentino importante nas relações do país com a Venezuela. A menos de três meses das eleições presidenciais nas quais a primeira-dama lidera as pesquisas para suceder ao marido, o caso transformou-se em uma dor de cabeça para o governo. Um mês atrás, a ex-ministra da Economia Felisa Miceli viu-se obrigada a abandonar o cargo por ter sido encontrada uma bolsa com cerca de US$ 60 mil de origem suspeita no banheiro do seu gabinete. Coincidência ou não, o advogado argentino contratado para defender o venezuelano, Guillermo Draletti, usou o mesmo argumentou utilizado por Felisa para justificar a bolsa encontrada no armário do banheiro de seu gabinete.  Guillermo justificou os US$ 800 mil dizendo que Antonini teria viajado à Argentina para comprar um imóvel muito importante, e que os vendedores lhe haviam pedido um sinal para realizar a operação.  Revelações O dinheiro, por sua vez, continua guardado em um cofre do Banco de la Nación, à espera de seu portador para retirar a metade. Os outros 50% ficam confiscados como pagamento de multa à Aduana por ter entrado no país sem ser declarado, conforme prevê a lei argentina. Outra revelação intrigante das investigações é o endereço fornecido pelo venezuelano na ficha de imigrações para entrada no país. Segundo o jornal Clarín, o endereço é da imobiliária Aylmer, da família do empresário Alfredo Yabrán, que se suicidou em 1998 em meio a um dos maiores escândalos de corrupção durante o governo de Carlos Menem. A imobiliária explicou que é dona de cinco andares do edifício citado por Antonini, no qual em um deles funciona a administração da empresa de táxis aéreos Royal Class, a mesma que a Enarsa fretou o jatinho do vôo de Caracas a Buenos Aires. (Com Marina Guimarães, da Agência Estado)

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