Agricultores da Bolívia insistem por mudanças na lei da Mãe Terra

Os agricultores de soja na Bolívia estão insistindo com o presidente Evo Morales para que reconsidere a proibição a sementes geneticamente modificadas incluída em um pacote de regulação ambiental chamado lei da Mãe Terra.

HELEN PO, Reuters

31 de outubro de 2012 | 13h46

O país andino é um pequeno produtor de soja em comparação com os vizinhos gigantes agrícolas Brasil e Argentina, mas a produção e as exportações da oleaginosa saltaram nos últimos anos devido a melhoras nas colheitas e plantações maiores.

A produção deve chegar a 2,4 milhões de toneladas este ano, das quais cerca de 80 por cento seriam exportadas, afirmam grupos do setor.

praticamente toda a soja boliviana utiliza sementes transgênicas e a lei assinada por Morales no início deste mês abalou os produtores do leste, historicamente um bastião da oposição ao presidente indígena aimará -- um defensor de métodos orgânicos de agricultura e da Pachamama, que significa a Mãe Terra nos Andes.

A legislação, que o ex-produtor de coca Morales chamou de um meio "para viver em equilíbrio e harmonia com a Mãe Terra", também impõe limites para a expansão da agricultura em áreas novas e atribui um valor espiritual para a terra além de sua função social e econômica.

Plantações de soja devem começar para valer em planícies verdejantes da Bolívia nas próximas semanas, mas algumas figuras da indústria dizem que a incerteza sobre as novas regras podem afetar os planos dos agricultores.

"É possível que, com essa incerteza, algumas pessoas vão evitar a semeadura ou semear menos usando as sementes não transgênicas que conseguirem obter", disse Fernando Asturizaga, um conselheiro da associação agrícola Anapo, com sede na cidade de Santa Cruz.

Líderes agrícolas estão mantendo negociações com o governo para pedir mudanças à proibição de transgênicos e expressar preocupações mais amplas sobre a legislação. Uma segunda reunião entre grupos de agricultores e autoridades deve acontecer nesta quarta-feira.

"Queremos que eles entendam as consequências potenciais das medidas contidas na legislação da Mãe Terra e façam alterações ou esclarecimentos seja na execução da lei ou através de uma nova lei", disse Asturizaga.

As exportações de soja arrecadaram 800 milhões de dólares no ano passado, fazendo da oleaginosa a terceira maior fonte de moeda estrangeira do país depois dos minérios e do gás natural, de acordo com o Instituto de Comércio Exterior da Bolívia (IBCE).

A maior parte dos embarques foi para a Venezuela e outros países andinos, na forma de óleo de soja e farelo de soja.

Produtores dizem que as novas regras também podem ameaçar a produção de outras culturas, como milho, arroz e açúcar, que os agricultores usam em rotatividade com a soja. Eles dizem que poderia elevar os custos de alimentos no país mais pobre da América do Sul.

A proibição de transgênicos, que entraria em vigor gradualmente de acordo com a lei, também poderia agravar o impacto dos custos de transporte elevados no país sem litoral, o que tornaria a competição mais difícil, dizem os críticos.

"É como correr os 100 metros, mas atirando no próprio pé primeiro. Nós estamos dando muitas vantagens aos nossos vizinhos", disse Marcelo Travesso, presidente da associação de fornecedores agrícolas APIA.

"É um grande passo para trás que vai ter repercussões econômicas graves para o agricultor boliviano".

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