Ajuda de Kirchner a vítimas da crise garante voto em grotões

Políticas de cofres abertos atenuam empobrecimento, mas conseqüências no médio prazopodem ser perigosas

Roberto Lameirinhas, enviado especial do Estadão,

25 de outubro de 2007 | 18h06

A frase na faixa eleitoral numa das entradas da capital da Província de Jujuy dá uma boa idéia da relação entre a população da cidade e o atual governo federal: "Kirchner nos cumplió; cumplamos con Kirchner." A percepção de que o presidente Néstor Kirchner atuou de maneira decisiva para atenuar os efeitos da crise econômica que culminou na renúncia de Fernando de la Rúa, em 2001, é mais ou menos generalizada em todo o interior da Argentina. Veja TambémEspecial: as eleições argentinas  Kirchner abriu os cofres para aplacar a revolta dos argentinos contra a política econômica de De la Rúa e do antecessor dele, Carlos Menem. Suspendeu o pagamento de parcelas da dívida externa com o FMI e o Clube de Paris, captou recursos vendendo títulos da dívida para a Venezuela de Hugo Chávez e despejou verbas do Tesouro sobre prefeituras e governos provinciais dos grotões argentinos. Leia mais sobre este assunto no Estadão desta sexta-feira. "Pelo menos, agora temos a quem recorrer para garantir o atendimento de nossas necessidades básicas", diz o estudante de agronomia Ricardo Teller, em meio a um mutirão da Associação de Bairros Tupac Amaru em San Salvador de Jujuy, capital da empobrecida Província de Jujuy, 1.700 quilômetros a noroeste de Buenos Aires. "Quem viveu aqui na época de Menem e De La Rúa sabe do que estou falando", completa o estudante. Os movimentos populares de Jujuy - ao lado dos de Neuquén, na Patagônia, no outro extremo do país - deram início à onda de descontentamento que tomou conta da Argentina em 2001. As primeiras greves gerais, passeatas violentas e piquetes que incluíam o bloqueio de estradas em Jujuy tiveram início em 1996, em protesto contra a política de redução do Estado, paridade cambial e austeridade fiscal de Menem. A revolta estendeu-se até o fim de 2001, quando De La Rúa, pressionado pela multidão em fúria, abandonou melancolicamente a Casa Rosada num helicóptero.  Durante os anos da campanha de protestos, os choques entre piqueteiros jujuenhos e policiais resultaram em pelo menos dez mortes. O alívio na tensão veio com Kirchner.  Segundo dados da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), os argentinos que viviam no limite da pobreza no biênio 2000-2002 eram 45,4% da população. Hoje, é de 26%. No mesmo período, Colômbia, México, Equador e Peru conseguiram reduzir seus índices de pobreza em apenas 4 pontos porcentuais. A redução da pobreza no Brasil ficou em pouco mais de 1 ponto.  Mas esse resultado tem um custo alto. "De 2005 até agora, Kirchner já gastou a metade do superávit comercial acumulado desde 2002", acusa o ex-ministro de Finanças do governo Kirchner Roberto Lavagna, um dos candidatos que disputam a presidência no domingo com a primeira-dama e senadora, Cristina Kirchner. "O resultado dessa falta de controle na busca pela clientela política certamente lançará o país numa nova espiral inflacionária." O dividendo político, porém, vale a pena. A política de cofres abertos levou mais de 85% de governadores e prefeitos a bandearem-se para o lado de Kirchner e converteu o peronismo numa máquina eleitoral ainda mais implacável do que era na época de sua fundação, pelo general Juan Domingo Perón. "Numa situação em que os partidos políticos praticamente não existem mais, é natural que os líderes políticos regionais adotem o pragmatismo de alinharem-se à força mais poderosa", diz o professor de ciências políticas da Universidade de Buenos Aires Lucas Rubinich. "Rompidos os laços ideológicos, sobraram os fisiológicos, que agora ligam esses políticos à força que lhes dá condições de manter sua influência."

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