Amado e odiado pelos peruanos, Fujimori ainda gera polêmica

Alguns o vêem como o homem que enfrentou o Sendero Luminoso; outros o vêem como corrupto e assassino

21 de setembro de 2007 | 19h44

Sete anos após deixar o poder, o ex-presidente peruano Alberto Fujimori, de 69 anos, ainda é uma figura polêmica no Peru. Para alguns, ele é o homem que teve coragem de enfrentar os militantes do grupo rebelde maoísta Sendero Luminoso. Para outros, ele é um déspota corrupto que enviou esquadrões da morte para matar pessoas inocentes e desviou dinheiro público durante seu governo de 1990 a 2000. Veja também:Suprema Corte aprova extradição de FujimoriFujimori voltará ao Peru nas próximas horasCronologia do caso desde chegada ao ChileSaiba por quais crimes Fujimori será julgado Fujimori, filho de japoneses, tornou-se presidente do Peru em 1990, após derrotar o escritor Mario Vargas Llosa com uma campanha baseada no distanciamento dos políticos tradicionais. Na época, o país sofria com a hiperinflação e a violência política. Logo após tomar posse, o agrônomo e ex-professor de matemática lançou um programa radical de reformas econômicas, acabando com subsídios, privatizando empresas estatais e reduzindo o papel do Estado na economia. Apesar de acabar com a inflação e abrir caminho para o crescimento econômico, a reforma de Fujimori dificultou a vida dos peruanos.  Quando alcançou a Presidência deu de cara com um país falido, com uma inflação superior a 7.000% e ameaçado pelos grupos armados de extrema-esquerda Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA). Diante dos impedimentos burocráticos e as práticas herdadas de um sistema político ineficaz, em 1992 dissolveu o Congresso e assumiu poderes absolutos. Depois foi aprovada uma nova Constituição, que lhe outorgou o direito de se reeleger. Além de controlar a economia, o então presidente peruano endureceu o combate ao Sendero Luminoso, grupo que causou milhares de mortes durante dez anos de luta armada. Um dos episódios marcantes de seu governo foi a libertação de dezenas de reféns seqüestrados pelo grupo na residência do embaixador japonês, em Lima, em 1997. Críticos, no entanto, acusaram a campanha contra o grupo rebelde de ser repleta de exageros. Promotores peruanos afirmam que Fujimori foi responsável pelos massacres de Barrios Altos, em 1991, e La Cantuta, em 1992, quando esquadrões da morte mataram 25 pessoas. Conhecido como um homem frio e autoritário, Fujimori exerceu o poder com mão-de-ferro, com apoio das Forças Armadas, sua principal aliada. Dois anos após assumir o cargo, o ex-líder peruano dissolveu o Congresso, afirmando que o Legislativo estava prejudicando o combate contra os rebeldes do Sendero Luminoso. Apesar das críticas, Fujimori foi reeleito pelos peruanos, em 1995, vencendo com ampla maioria o ex-secretário-geral da ONU Javier Pérez de Cuéllar e se consolidando no poder. Durante seu segundo mandato, no entanto, Fujimori passou a ser acusado de intimidar seus opositores políticos, usando o serviço secreto, liderado por seu aliado Vladimiro Montesinos. De acordo com a oposição, o governo peruano passou a pressionar também meios de comunicação e o judiciário, além de financiar suas campanhas com recursos públicos. A ERA FUJIMORI 1990: Surpreendentemente vence as eleições presidenciais 1992: Dissolve o Congresso do Peru com apoio militar, assumindo maior controle1995: Restitui o Congresso e é reeleito2000: Reeleito para um terceiro mandato sofrendo acusações de fraude nas eleições 2000: Foge para o Japão depois que o escândalo do Montesinos2001-2004: Japão recusa tentativas repetidas de extradição2005: Fujimori é detido ao chegar no Chile a pedido do PeruO anúncio de que Fujimori tentaria um terceiro mandato chocou o país. Em abril de 2000 voltou a se candidatar à Presidência e venceu Alejandro Toledo, que renunciou à disputa do segundo turno após denunciar fraudes no pleito. Cinco meses após ter vencido as eleições, o governo peruano foi derrubado pelo o escândalo envolvendo Montesinos e uma série de subornos. Fujimori fugiu para o Japão, de onde enviou uma carta de renúncia. O Congresso peruano rejeitou a renúncia e acabou com o mandato de Fujimori alegando "incapacidade moral". Concedida a nacionalidade japonesa, Fujimori não deixou de intervir na política peruana desde seu refúgio e mediante seu partido, agora denominado Novo Partido dos Cidadãos, que tem sua filha Keiko como representante no Congresso. Amparado por sua dupla nacionalidade, Fujimori conseguiu que o Japão rejeitasse várias vezes as reivindicações de extradição do Peru. No Japão, conheceu sua atual esposa, a milionária Satomi Kataoka, com quem se casou no Chile, em abril de 2006, enquanto cumpria pena em prisão domiciliar. Fujimori tinha sido casado com Susana Higuchi, também peruana de origem japonesa, que o acusou de maus-tratos e se divorciou. Do Japão, o ex-presidente projetou uma estratégia para retornar ao Peru e participar das eleições de 2006. Decidiu primeiro viajar ao Chile, onde chegou em 6 de novembro de 2005 em um avião particular burlando a Interpol (polícia internacional). Além disso, tentou ser eleito senador nas recentes eleições legislativas do Japão, em julho último, por um partido minoritário, e fracassou. Detido em Santiago, acompanhou o início o julgamento para decidir sobre sua extradição, que teve seu último capítulo nesta sexta. Agora, o ex-presidente do Peru será levado aos tribunais sete anos depois de ter renunciado e fugido, após o anúncio nesta sexta de sua extradição por parte da Suprema Corte do Chile. Quase dois anos após sua inesperada chegada ao Chile procedente do Japão, onde passou cinco anos refugiado sob amparo de sua dupla nacionalidade, o ex-presidente voltará a seu país para ser julgado por graves delitos contra os direitos humanos e por corrupção.

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