América do Sul isola Paraguai e pede volta da democracia

A América do Sul reforçou no domingo um cerco diplomático ao Paraguai que pode golpear a economia do país em protesto pelo impeachment do presidente Fernando Lugo, enquanto o novo governo que o substituiu tenta obter o reconhecimento da região.

GUIDO NEJAMKIS E DANIELA DESANTIS, REUTERS

25 de junho de 2012 | 07h49

A pressão dos países sul-americanos sobre o substituto de Lugo no poder, o ex-vice-presidente Federico Franco, aumentou com a decisão do Mercosul de suspender a participação do Paraguai de uma cúpula e com a interrupção do envio de petróleo da Venezuela, o maior fornecedor do Paraguai.

Venezuela, Argentina e Equador retiraram seus embaixadores do Paraguai após a destituição de Lugo em um julgamento político relâmpago no Congresso, que foi considerado na América do Sul como uma quebra da ordem institucional. O novo governo paraguaio nega com veemência a acusação.

O Brasil chamou o embaixador em Assunção de volta para consultas e uma alta fonte do governo brasileiro disse que há um consenso para aplicar sanções ao Paraguai e "transformar este novo governo em um pária".

Uruguai, Colômbia e Chile também chamaram seus embaixadores para consultas, mostrando seu mal-estar pela queda de Lugo.

O senador Miguel Abdón Saguier, aliado do novo presidente Franco, considerou "grave e arbitrária" a decisão do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de interromper o envio de petróleo e disse à Reuters que o novo governo resistirá a "está espécie de Tríplice Aliança do século 19", em alusão à guerra de 1870 em que os Exércitos de Brasil, Argentina e Uruguai devastaram o Paraguai.

A pressão da região é bastante perigosa para a pobre economia do Paraguai, que depende dos portos de seus vizinhos Argentina, Brasil e Uruguai para o transporte e o abastecimento, além das exportações.

O Paraguai também pode enfrentar sanções dos organismos regionais dos quais participa, como a União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

Lugo, que foi deposto num impeachment, disse que o governo liderado por Franco é falso e que não vai colaborar com ele. Também anunciou que vai comparecer à reunião do Mercosul esta semana em Mendoza, na Argentina, para explicar a situação.

Os representantes do novo governo paraguaio não poderão comparecer, já que o Mercosul suspendeu a participação do país por considerar que foi quebrada a ordem institucional, segundo informou em nota a chancelaria da Argentina, que ocupa a presidência rotativa do bloco.

As ruas de Assunção estiveram semi desertas no domingo de sol de inverno, exceto em frente à sede do canal estatal de TV, onde manifestantes pediam a "restituição" de Lugo. O sossego que reinava na capital foi destacado pelo novo governo, que considera a mudança de comando totalmente legítima.

Muitos cidadãos expressaram indiferença com a situação política, apesar de alguns terem reprovado a forma como Lugo foi destituído, mas também sem poupar críticas ao ex-bispo católico.

"Lugo era um inútil, mas o Congresso foi uma piada, eram os sujos falando do imundo", disse Benjamín Aguayo, um estudante de 18 anos.

O Congresso paraguaio decidiu na última quinta-feira abrir processo de impeachment contra Lugo sob a acusação de que ele não teria cumprido adequadamente suas funções por conta de um episódio em que 17 sem-terras foram mortos num confronto com a polícia do país.

No dia seguinte, o Senado do país aprovou por ampla maioria a destituição de Lugo e deu posse ao então vice-presidente.

(Reportagem de Daniela Desantis, Guido Nejamkis e Didier Cristaldo, com reportagem adicional de Marianna Párraga e Juan Lagorio em Caracas, Brian Winter em São Paulo, Alexandra Valencia em Quito e Magdalena Morales em Buenos Aires)

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