América Latina elogia transferência do poder em Cuba

A América Latina elogiou naterça-feira a decisão de Fidel Castro de deixar o poder apósquase meio século, despertando a esperança de uma transiçãopacífica para a democracia em Cuba. Fidel, de 81 anos, disse em texto publicado na terça-feirapelo jornal oficial Granma que não se recuperou da doença que oobrigou a ceder interinamente o poder a seu irmão Raúl, emjulho de 2006, e que por isso decidia não se candidatar a umnovo mandato na eleição indireta marcada para o dia 24. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que visitou oveterano revolucionário em meados de janeiro, disse ter tido aimpressão de que ele estava em boas condições para reassumir ogoverno, mas ao mesmo tempo "sentia que Fidel estava analisandoa situação política e queria criar as condições para que issopudesse ocorrer". E, apesar de o Brasil e a maioria dos países sul-americanosterem governos de esquerda -- e de Fidel ter sido fonte deinspiração para vários presidentes da região -, muitos delesviram a renúncia como parte de um processo que trará maiorabertura democrática. "O processo [de transição] se dá de forma mais tranqüila,com a iniciativa do próprio Fidel, acho que é assim como deviaocorrer", acrescentou Lula durante um evento no Espírito Santo. O governo da Venezuela, principal aliado de Cuba naatualidade, disse que a aposentadoria de Fidel significa que"abre-se para este país um novo processo em sua estruturarevolucionária", segundo o ministro da Informação, AndrésIzarra, em uma breve declaração. Caracas entrega petróleo em condições muito favoráveis aCuba, o que permitiu uma certa recuperação econômica para ailha e fez do presidente Hugo Chávez uma das personalidadesmais populares no país. Para o governo da socialista chilena Michelle Bachelet, arenúncia marca o fim de uma etapa histórica na ilha, que eragovernada por Fidel desde a revolução de 1959, que derrubou oditador Fulgencio Batista. "Depois de mais de 40 anos, culminou uma etapa, e o governo[chileno] espera que tanto o povo quanto o governo cubano tomemas decisões que os conduzam a um caminho, a um horizonte",disse o porta-voz Francisco Vidal a jornalistas. O presidente boliviano, Evo Morales, afirmou que a decisãode Fidel o pegou de surpresa, mas que demonstra que ademocracia existe em Cuba. O chanceler da Nicarágua, Samuel Santos, disse por sua vezque Fidel "foi um gigante e renuncia como um gigante". A chancelaria mexicana manifestou em nota que a decisão deFidel é "sem dúvida um acontecimento de grande importância"para Cuba, e que o governo do conservador Felipe Calderón"seguirá com atenção os acontecimentos políticos desta novaetapa da história de Cuba, com pleno respeito àauto-determinação e à vontade do povo cubano". As relações entre Cuba e México, aliados históricos,sofreram um golpe durante o governo de Vicente Fox (2000-06) ecomeçaram a se recuperar há poucos meses. Na Guatemala, o ex-guerrilheiro César Montes, que passoupor treinamento em Cuba, disse que o grande legado da revoluçãofoi mostrar à América Latina como resistir às políticas dosEstados Unidos. Ele anteviu uma etapa de distensão política nailha. "Acho que haverá possibilidades para maiores expressõescríticas, já estão se dando e vão continuar ocorrendo." (Com reportagem de Julio Villaverde no Rio de Janeiro,Mónica Vargas em Santiago, Mica Rosenberg na Cidade do México,Gustavo Palencia em Honduras, Marco Aquino no Peru, Iván Castroem Managua, Ana Isabel Martínez em Caracas e Carlos AlbertoQuiroga em La Paz)

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