América Latina se mobiliza para conter crise regional

A América Latina se mobilizou nasegunda-feira para evitar que a pior crise diplomática daregião em décadas, provocada por uma incursão militar daColômbia no Equador, transforme-se em um conflito de gravesconsequências. Os efeitos da ação militar de sábado, na qual foi morto onúmero dois da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias daColômbia (Farc), Raúl Reyes, se agravaram após as durasdeclarações do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Depois de acusar o presidente colombiano, Alvaro Uribe, deser "um mentiroso, um mafioso e um paramilitar", Chávezdeterminou o envio de mais soldados para a fronteira com aColômbia, mesma manobra adotada pelo presidente do Equador,Rafael Caldera. Os dois países retiraram seus embaixadores de Bogotá. "Potencialmente, essa é a crise mais grave que a América doSul enfrenta desde a quase guerra entre a Argentina e o Chileem 1978 e a guerra das Malvinas", afirmou Eduardo Viola,professor de relações internacionais na Universidade deBrasília. O último conflito bélico na América do Sul ocorreu em 1995,quando Equador e Peru protagonizaram choques fronteiriços porconta de uma velha questão limítrofe, e foi solucionado porgestões de um grupo de "países amigos", integrado porArgentina, Brasil, Chile e Estados Unidos. Na segunda-feira, os países da região intensificaram asconsultas iniciadas no fim de semana para conter a crise,incluindo contatos entre presidentes e chanceleres. O Brasil, que possui um reconhecido papel de liderançasobre os vizinhos, usará "toda a força" de sua diplomacia ecoordenará ações com o governo dos outros países a fim delimitar a crise, afirmou Marco Aurélio Garcia, assessor paraassuntos internacionais do presidente Luiz Inácio Lula daSilva. Iniciando esses esforços, Lula "conversará por telefone, nasegunda-feira, com a presidente da Argentina, CristinaFernández de Kirchner", acrescentou García à rádio CBN. O governo brasileiro não pretende interferir com osassuntos internos de outros países, "mas nosso princípio de nãointerferência não pode significar indiferença", afirmou oassessor.Por sua parte, o Conselho Permanente da Organização dos EstadosAmericano (OEA) convocou uma reunião extraordinária paraterça-feira com o propósito de tratar do conflito. EXPLICAÇÕES AO EQUADOR Em Santiago, a presidente do Chile, Michelle Bachelet,disse que a incursão militar colombiana "merece sem dúvida umaexplicação da parte da Colômbia aos equatorianos, ao presidentedos equatorianos e à região como um todo." Bachelet afirmou à rádio chilena ADN que seu governo haviaentrado em contado com a Argentina e o Brasil, bem como com ochefe da Organização dos Estados Americanos (OEA), para avaliara situação. "Todos nós queremos que haja paz, paz na região, e nessesentido tanto a OEA como presidentes, os colegas, o presidenteCorrea, todos nós podemos desempenhar um papel tendo isso emmente", acrescentou. O presidente do Paraguai, Nicanor Duarte Frutos, condenou aoperação militar da Colômbia e atribuiu aos organismosinternacionais a obrigação de "encarar com seriedade a situaçãoa fim de que possamos avançar preservando a paz e a convivênciapacífica." O Peru, vizinho da Colômbia e do Equador, manifestou sua"enorme preocupação" com a crise, afirmando esperar que os doispaíses mais a Venezuela possam superá-la. "No Peru, confiamos que os laços históricos desses trêspaíses pesem muito mais que qualquer diferença circunstancial eque, de forma definitiva, seus presidentes e corposdiplomáticos saibam encontrar uma saída apropriada," afirmou oprimeiro-ministro peruano, Jorge del Castillo, a uma rádio. O presidente do México, Felipe Calderón, conversou modomingo, por telefone, com seus colegas de Equador e Colômbiasobre "a delicada situação entre os dois países", disse aPresidência mexicana em comunicado. Calderón expressou a "vontade de seu governo de apoiarqualquer ação, a pedido das partes, que favoreça o diálogoentre as nações, com o propósito de que a relação bilateralrecupere sua normalidade o mais rápido possível", acrescentou anota. O ex-presidente cubano Fidel Castro, amigo de Chávez e deCorrea, disse que "soam com força no sul do nosso continente astrombetas da guerra, e isso por consequência dos planosgenocidas do império ianque." "Nada de novo! Estava previsto!", acrescentou, em um textopublicado no jornal Granma. Fidel ainda lamentou o fato deCorrea ter sido obrigado a cancelar sua visita a Cuba, ondeseria o palestrante principal de um seminário sobre aglobalização e o desenvolvimento. No entanto, observou o professor Viola, apesar de a criseser potencialmente muito grave, "dificilmente eles (osprotagonistas da crise) avançarão para além da retórica." (Reportagem adicional de Antonio de la Jara em Santiago;María Luisa Palomino e Marco Aquino em Lima, Esteban Israel emHavana, Daniela Desantis em Assunção, e Pablo Garibian naCidade do México)

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