América Latina vai continuar em 2.º plano no governo Obama

Para Moisés Naím, editor da 'Foreign Policy', Brasil deve ter posição de destaque em relações com EUA

BBC Brasil,

17 de abril de 2009 | 08h43

O novo governo americano deverá estreitar os laços com a América Latina, mas, mesmo assim, a região ainda continuará em segundo plano para os Estados Unidos, disse à BBC Brasil o especialista em relações internacionais Moisés Naím, editor da revista americana Foreign Policy. "Há uma piada de mau gosto que diz que a América Latina não é competitiva nem como ameaça", disse Naím, que participou do Fórum Econômico Mundial na América Latina, encerrado nesta quinta-feira, no Rio de Janeiro. A piada citada por Naím se refere ao fato de a região não ter ameaças como bombas nucleares ou ataques extremistas.

 

Segundo o especialista, temas emergenciais, como Afeganistão e Paquistão, devem continuar a ser prioridade para Washington. No entanto, Naím diz que há um compromisso real do governo de Barack Obama de dar mais atenção à América Latina, região que, na opinião de muitos analistas, foi ignorada durante o governo de George W. Bush. "Há uma atitude de maior engajamento e mais disposição para ouvir da parte de Obama", disse Naim.

 

Na opinião do analista, o recente anúncio do relaxamento de algumas restrições a Cuba, por exemplo, seria um indicativo dessa nova postura americana e um movimento em direção ao fim do embargo.

 

Cúpula das Américas

 

Nesta sexta-feira, líderes de 34 países da América Latina estarão reunidos em Trinidad e Tobago na 5ª Cúpula das Américas, e é grande a expectativa em relação à participação de Obama no encontro. Segundo Naím, a cúpula ocorre em um momento em que as divisões internas na América Latina são até mais profundas do que a própria divisão entre a região e os Estados Unidos.

 

"A América Latina está dividida internamente. Há um eixo de Hugo Chávez e outro de Lula", disse Naím, que foi ministro de Indústria e Comércio da Venezuela no início dos anos 1990. Para ele, o eixo alinhado a Chávez inclui, além da Venezuela, países como Bolívia, Equador, Paraguai, Argentina, Cuba, Honduras e Nicarágua. "São países com posições até hostis em relação aos investimentos privados e aos Estados Unidos."

 

O grupo liderado pelo presidente brasileiro, segundo Naím, é formado por países como Chile, Colômbia e Peru e tem uma atitude mais aberta em relação aos investimentos do setor privado. "São países muito engajados com o resto do mundo e que têm uma relação muito próxima e amigável com os Estados Unidos", afirma.

 

Nesse contexto de aproximação do governo americano com a América Latina, o Brasil deve assumir uma posição de destaque, segundo o especialista. Naím disse que o Brasil recebe pouca atenção dos Estados Unidos se comparado, por exemplo, a Cuba. Para ele, há vários temas em que Estados Unidos e Brasil podem trabalhar de maneira mais próxima, como comércio e meio ambiente. "A questão ambiental não pode ser resolvida sem o Brasil", disse.

 

Apesar de toda a expectativa quanto à participação de Obama na reunião de Trinidad e Tobago, Naím disse que o clima da cúpula será de "speed dating" (encontros rápidos em que casais têm poucos minutos para conversar e se conhecerem). "São 34 presidentes e todos querem se reunir com Obama. Se ele conceder 30 minutos para cada um, seriam 17 horas", disse. "Não vai acontecer."

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