ANÁLISE-Governo de Raúl Castro não realizaria mudanças radicais

No domingo, ao suceder seu irmão, o novopresidente de Cuba, Raúl Castro, escolheu uma equipe de governoformada por aliados políticos e militares, consolidando assimseu poder e aplacando as esperanças de que o país comunistainicie um processo rápido de mudanças. Raúl e seu novo círculo administrativo, com membros eleitospela Assembléia Nacional de Cuba, um órgão sem autonomia, sãona maioria homens de idade que devem avançar lentamente em meioa esforços para reavivar a economia da ilha sem, no entanto,trair os ideais de Fidel. O antigo líder do país anunciou suaaposentadoria na semana passada. O nome mais próximo das reformas econômicas da década de1990, Carlos Lage, foi preterido em favor de José Ramón MachadoVentura, um ideólogo comunista da linha-dura e amigo íntimo deRaúl, para ocupar o cargo de vice-líder do país. "Raúl optou por seus camaradas de longa data, com os quaismantém laços estreitos, em vez de realizar uma passagem bruscapara a nova geração", disse Phil Peters, especialista em Cubado Instituto Lexington, um grupo de pesquisa com sede nos EUA. Peters afirmou ter ficado surpreso com a escolha de MachadoVentura. Machado Ventura, 77, encarregado da organização do PartidoComunista, deve esfriar o debate sobre as dificuldades e asrestrições enfrentadas pelos cubanos em meio a uma ineficienteeconomia estatal, em uma discussão que foi incentivada porRaúl. "Machado é conhecido pelas amarras ideológicas que atrelaao debate. Quanto a suas posições, Machado aproxima-se da velhaguarda", disse Julia Sweig, especialista em Cuba no Conselho deRelações Exteriores, outro grupo de pesquisa dos EUA. Lage, 55, era apontado pela comunidade de empresáriosestrangeiros em Cuba como o favorito para ocupar o segundocargo mais importante da ilha. Entre esses investidores, ele éconsiderado um defensor de uma abertura mais rápida da economiapara as empresas privadas. "Essa é uma mensagem indicativa da manutenção do cursoatual", afirmou o gerente de uma multinacional com negócios nailha caribenha. "Mas esperamos que signifique que eles se consolidaram nopoder e serão capazes de realizar reformas analisadasatualmente com vistas a aumentar a produtividade e ossalários", disse o executivo estrangeiro. CONSENSO Se Machado estiver em sintonia com um programa de reformas,a escolha dele para vice-líder do país sinalizaria que Raúlgarantiu um consenso a respeito de como avançar, disse Peters. O homem que Washington chama de "Fidel Light" alimentouesperanças entre alguns cubanos de que esses terão permissãopara viajar ao exterior e para vender suas casas e carros. Em dezembro, Raúl afirmou que Cuba possuía "proibiçõesexcessivas". Em seu discurso de posse, anunciou que começaria acancelar, nas próximas semanas, algumas restrições simples. O novo dirigente disse também que estudará uma "gradual eprudente" revalorização do peso cubano, usado para pagar osmagros salários públicos, cuja média é de 15 dólares por mês. Oobjetivo é aumentar o poder de compra dos cubanos ao aproximaro valor do peso da moeda forte chamada CUC (peso cubanoconversível) e usada para comprar bens de consumo. "Gradual e prudente" poderiam se transformar nas senhas dogoverno de Raúl enquanto ele tenta melhorar o padrão de vidados cubanos sem desmantelar o sistema socialista que o irmãoconstruiu e antes que a insatisfação popular aumente. "Raúl é um homem realmente pragmático. E para todos eles(os dirigentes cubanos) o relógio das necessidades mais básicasjá começou a fazer tique-taque", afirmou Sweig. Ainda assim, qualquer um que aposte em uma abertura demercado ao estilo chinês após cinco décadas de governo Fideldeve se desapontar. Brian Lattel, um ex-analista da CIA, declarou que MachadoVentura é um homem totalmente confiável, mas que não tem apelojunto aos cubanos jovens e tampouco resolve a questão sobrequem será o sucessor de Raúl, que tem 76 anos de idade. Entre os principais integrantes do governo Raúl Castro,apenas Lage tem menos de 70 anos.

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