ANÁLISE-Libertação de reféns na Colômbia é revés para Chávez

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez,prometeu durante meses garantir a libertação dafranco-colombiana Ingrid Betancourt, mas o resgate dela em umasurpreendente operação acabou por se transformar um revés parao líder esquerdista. Poucas horas depois de ter sido libertada por soldadoscolombianos, a ex-candidata à Presidência da Colômbia conclamouChávez a não interferir nos assuntos de seu país e deu apoioamplo ao presidente Alvaro Uribe, um aliado dos Estados Unidose adversário do líder da Venezuela. A audaciosa operação de resgate ocorrida na quarta-feiradeve aumentar o apoio à linha-dura adotada por Uribe diante daguerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) ediminuir o apoio à postura de Chávez, segundo o qual apenas odiálogo poderá colocar fim às quatro décadas de guerra noterritório colombiano. "Chávez tem acusado Uribe de ser um dirigente belicoso,mas, quando do nada Uribe consegue esse resgate sem disparar umúnico tiro, Chávez precisa reavaliar sua postura", disseEduardo Gamarra, diretor do Newlink Research, uma empresa depesquisa de opinião pública com sede em Miami e que trabalha naAmérica Latina. Os militares colombianos conseguiram, na quarta-feira,enganar os rebeldes fazendo-os libertar Betancourt e outros 14reféns, entre os quais três norte-americanos, de um acampamentona mata. A operação, durante a qual nenhum tiro foi disparado,desfere um pesado golpe contra o mais antigo grupo insurgentelatino-americano. O falante Chávez, que sempre fez comentários a respeito doconflito na Colômbia, demorou para se manifestar a respeito doresgate dos reféns, os mais importantes dentre os mantidospelas Farc. "Estamos supercontentes com a libertação dessas pessoas. Eainda mais contentes por saber que elas foram libertadas sem oderramamento de uma gota de sangue", disse o presidentevenezuelano na quinta-feira, quase 24 horas depois dadivulgação da notícia. Ainda neste ano, Chávez, um ex-oficial do Exército queliderou um golpe de Estado fracassado, usou seu perfilesquerdista para convencer os dirigentes das Farc a soltaremseis reféns, entre os quais vários políticos, em uma manobraelogiada em todo o continente. No entanto, as relações com a Colômbia azedaram depois demilitares colombianos terem realizado um ataque no Equador quematou Raúl Reyes, um dos comandantes das Farc. A operação geroua pior crise diplomática dos Andes em dez anos e fez aumentaras tensões entre os governos colombiano e venezuelano. MUDANÇA DE POSTURA À medida que os sucessos militares de Uribe acumulavam-senos últimos meses e pesquisas de opinião mostravam que asimpatia de Chávez pelas Farc rendia-lhe poucos dividendos, opresidente esquerdista mudou de posição para dar destaque ànecessidade de a guerrilha concentrar-se no caminho dasnegociações. Ao garantir a libertação de reféns importantes neste ano,Chávez deveria ter melhorado sua imagem internamente e noexterior em um ano eleitoral na Venezuela. No entanto, os elogios recebidos por Uribe na quinta-feirada parte de chefes de Estado e a adulação vinda dos colombianospodem fortalecer seu núcleo mais fiel de simpatizantes a darcontinuidade a uma reforma constitucional a fim de permitir queo presidente da Colômbia reeleja-se uma segunda vez e conquisteum terceiro mandato. Vestindo roupas militares, Betancourt conversou comrepórteres na quarta-feira, agradecendo Chávez por patrocinar alibertação de seis reféns nos meses anteriores deste ano. Mas os agradecimentos dela vieram acompanhados de um apelopara Chávez, que manifestou simpatia pelas Farc, e para opresidente equatoriano, Rafael Correa, um aliado dele envolvidoem uma troca de declarações duras com Uribe. "Acho que eles são aliados importantes nesse processo --mas sob a condição de que respeitem a democracia colombiana. Oscolombianos elegeram Alvaro Uribe. Os colombianos não elegeramas Farc", disse Betancourt. Na TV estatal da Venezuela, abertamente pró-Chávez,comentaristas criticaram as declarações dela e acusaram-na detentar usar a notoriedade internacional para promover aspolíticas de Uribe. "Ela está falando como se fosse membro do governo Uribe",disse Walter Marquez, um analista de relações internacionais,quando concedeu uma entrevista ao canal estatal. Betancourt afirmou ainda que a opção colombiana porpermitir a primeira reeleição de Uribe já tinha significado umgolpe contra as Farc ao permitir a continuidade do combate aesse grupo, sugerindo que daria apoio ao polêmico esforço dopresidente colombiano para obter um terceiro mandato. As declarações de Betancourt surgiram dias depois de aprincipal corte da Colômbia ter questionado a legitimidade dareeleição de Uribe em 2006 porque uma integrante do Congressoconfessou haver recebido propina para votar a favor da reformaque autorizou a reeleição. Betancourt conclamou Correa e Chávez a restabelecerem suasrelações com Uribe e disse que outros líderes deveriam serconvidados para ajudar nos esforços para libertar as centenasde reféns ainda sob o poder dos guerrilheiros. "Convocamos o presidente Chávez e o presidente Correa paranos ajudarem a estabelecer laços de amizade e fraternidade como presidente Uribe", afirmou Betancourt.

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