ANÁLISE-Reação do Brasil privilegia isolamento do Paraguai

A reação do governo brasileiro à crise decorrente da saída de Fernando Lugo da Presidência do Paraguai em um processo de impeachment relâmpago tem sido orientada na direção de isolar politicamente o novo governo do país para evitar a adoção de sanções econômicas punitivas, como defendem países vizinhos.

ANA FLOR, REUTERS

26 de junho de 2012 | 19h14

Desde a última sexta-feira, assessores da presidente se dividem entre reagir com sanções duras, como defendem vizinhos como Argentina, e aceitar o novo governo de Federico Franco. Dilma, entretanto, optou por uma posição considerada pragmática por analistas, com retaliações políticas, mas mantendo intactos os laços econômicos.

De acordo com uma fonte do Planalto, que falou à Reuters sob condição de anonimato, apesar de ser uma posição defendida por algumas vozes dentro do governo, o Brasil dificilmente aceitará que o Mercosul imponha medidas além do isolamento político do Paraguai na reunião de sexta-feira, como querem alguns vizinhos, que ameaçam o país com a perda de vantagens do bloco.

Entre os motivos, os laços econômicos dos países e a presença de mais de 300 mil "brasiguaios" -produtores brasileiros naturalizados paraguaios, ou paraguaios descendentes de brasileiros- no país vizinho.

Segundo a fonte, o governo brasileiro acredita que a melhor saída a ser construída é a antecipação das eleições no Paraguai, marcadas para abril do próximo ano. Para isso, o Brasil está disposto a suspender todos os contatos políticos com autoridades paraguaias, como vem fazendo desde a deposição de Lugo na última sexta-feira.

"Ser excluído de encontros regionais, deixar de ser recebido pelos presidentes, não dar andamento a negociações bilaterais são sinais políticos fortes", afirmou outra fonte do Planalto.

O Brasil tem reiterado que nenhuma decisão deve ser tomada antes da reunião do Mercosul, que será realizada nos dias 28 e 29 em Mendoza, na Argentina.

A suspensão do Paraguai do Mercosul e da Unasul já são dois "importantes" sinais de isolamento do país, segundo uma alta fonte da diplomacia brasileira.

Apesar da tentativa do Franco de tentar explicar que todo o processo ocorreu de maneira democrática, o Brasil "toma nota, respeita a posição, mas não concorda" com a "sumária substituição" de Lugo.

"Do ponto de vista do Brasil, o processo não foi democrático", acrescentou a fonte diplomática.

Para o embaixador Rubens Barbosa, o governo Dilma está sendo "muito pragmático". "Do ponto de vista da defesa do interesse brasileiro, não interessa criar um caso", afirmou à Reuters. Segundo ele, a atitude do governo Dilma contrasta fortemente com a política externa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O caso mais lembrado pelos especialistas é a retirada do poder do ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya, que em 2009 acabou voltando ao país e se refugiando na embaixada brasileira, em um movimento que teve o aval do então presidente Lula.

"Lá estávamos em um conflito que não era no nosso quintal. Aqui, com o Paraguai, não podemos deixar de atuar", afirmou outra fonte do Planalto, acrescentando que "hoje os tempos são diferentes".

Para Barbosa, não se pode esquecer as afinidades ideológicas entre Lula, o PT e a esquerda paraguaia. "O Lugo foi eleito com apoio do Lula e do PT", afirmou. "Se o Lula estivesse aí, a posição do Brasil seria muito diferente, seria mais próxima da Venezuela, por exemplo", declarou Barbosa, para quem "o Brasil de Dilma está fechando os olhos para o Paraguai, como fecha para a Venezuela".

ITAIPU

Apesar de o Planalto e o Itamaraty não estarem dialogando com o novo governo paraguaio, os contatos entre a direção de Itaipu brasileira e paraguaia não cessaram. O diretor-geral brasileiro, Jorge Samek, se reuniu nesta terça-feira com o novo diretor paraguaio, Franklin Boccia Romañach.

Próximo de Dilma, Samek tem sido na prática um dos embaixadores brasileiros junto aos governos paraguaios recentes. Ele participou da reunião de emergência que Dilma fez no sábado no Palácio da Alvorada com um pequeno grupo de assessores. Desde então, tem reportado diariamente ao Planalto o andamento das conversas.

A cautela do Brasil em relação ao Paraguai também tem motivação na imagem que o país quer passar como liderança regional e, principalmente, a vontade de se afirmar como uma potência que não interfere nos assuntos internos dos vizinhos.

"Queremos mostrar que somos diferente dos Estados Unidos na forma de lidar com vizinhos que dependem do Brasil", disse uma das fontes, referindo-se a sanções econômicas aplicadas como forma de pressão pelos EUA no passado.

(Com reportagem adicional de Hugo Bachega)

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