ANÁLISE-Relação Argentina-EUA depende de olhar para Chávez

O modo como a presidente eleitaCristina Kirchner vai conduzir as relações internacionais daArgentina vai determinar se ela conseguirá conciliar asrelações amistosas com Washington e a aliança com o governoesquerdista da Venezuela. Mas especialistas ouvidos em Washington ainda esperam paraconhecer a orientação a ser adotada por Cristina, eleita nodomingo por ampla margem de votos. Não há previsões de grandemudança, porém, porque a nova presidente sucederá ao seumarido, Néstor Kirchner, que priorizou as questões internaspara promover a recuperação da economia depois da crise de2001-2002. Para Michael Shifter, da entidade Diálogo Interamericano,Cristina "deve ser mais visível e ativa no circuitointernacional do que seu marido, e pode querer deixar sua marcana relação bilateral (com os EUA), mas ainda não está claro seela quer fazer mudanças em algumas políticas-chave, como arelação da Argentina com (o presidente venezuelano, Hugo)Chávez, e sua postura frente à comunidade financeirainternacional". Na opinião de Shifter, a tendência é de que as relações comWashington sigam "cordiais, mas distantes". Em seu governo, Kirchner optou por se distanciar dos EUA ecortar relações com o Fundo Monetário Internacional (FMI),depois de pagar a dívida com o órgão. Por outro lado,aproximou-se de governos esquerdistas, como o de Chávez, queajudou a Argentina comprando 5,1 bilhões de dólares em títulospúblicos do país depois da moratória da dívida argentina. Mas essa dinâmica pode mudar com Cristina, que viajou aosEstados Unidos e à Europa durante a campanha presidencial. ORDEM NA CASA "É preciso esperar que Cristina preste muita atenção aotema internacional, porque a Argentina também tem, inclusivepor suas necessidades comerciais, a necessidade de ter umvínculo com o mundo," disse o chefe de gabinete do governoargentino, Alberto Fernández. "Tivemos um pouco de nos fecharem para pôr ordem na casa", acrescentou, sobre os anosrecentes. Cristina prometeu a continuidade das políticas que levaramà recuperação econômica, mas deverá enfrentar uma alta inflaçãoe uma escassez energética, num momento em que os controlestarifários desestimularam investimentos no setor. Para atrair investidores, ela teria de buscar um acordopara uma dívida de 6,3 bilhões de dólares pendente com o Clubede Paris, que dependeria do aval do FMI. Ainda não está clarose Washington apoiaria Cristina nessa negociação, segundoRiordan Roett, diretor do Programa de Estudos Latino-Americanosda Universidade Johns Hopkins. "Se Cristina for esperta, vai tratar os temas econômicosrapidamente e continuará amigável, mas distante, de Chávez",afirmou. "O tema da Venezuela é delicado. Nem os democratas nem osrepublicanos (dos EUA) gostam de Chávez. Se ela o defender,como fez em Madri em agosto, isso não será positivo", afirmou. Larry Birns, do Conselho de Assuntos Hemisféricos, umaentidade de esquerda, considerou que seria lógico que aArgentina mantivesse sua gratidão pela ajuda dada por Chávez nacrise, mas é possível que não permaneça tão perto de Caracas. "Ao mesmo tempo, é provável que a Argentina busque manteruma relação correta e positiva com os Estados Unidos, mas nãouma aliança, como as que têm Colômbia e Peru", disse Birns. Para Peter DeShazo, ex-diplomata e diretor do Centro deEstudos Estratégicos e Internacionais, os EUA buscarão tambémboas relações com Buenos Aires. "Há muitos temas de interessemútuo, como segurança hemisférica, comércio e desenvolvimentoeconômico." (Colaborou Lucas Bergman em Buenos Aires)

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