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Apesar da derrota, Cristina não muda rumos de governo

Mercados condenam 'remanejamento' de ministros; presidente argentina sofre várias baixas após eleições

Ariel Palacios, O Estado de S. Paulo

08 de julho de 2009 | 20h16

"Continua o mesmo rumo!". Com estas palavras, pronunciadas em tom categórico, Miguel Ángel Pichetto, líder da bancada do governo no Senado, deixou claro nesta quarta-feira, 8, de manhã que a presidente Cristina Kirchner não pretende modificar suas diretrizes apesar da dura derrota sofrida nas eleições parlamentares do dia 28 de junho. Nas horas seguintes, os mercados reagiram de forma negativa. A Bolsa caiu 2,8%. Os títulos da dívida pública argentina registraram quedas de 7% a 12%.

 

Os analistas na city financeira portenha ressaltaram que o gabinete mantém figuras controvertidas e pouco amigáveis com os mercados. Esses são os casos do poderoso ministro de Planejamento Federal e Obras Públicas, Julio De Vido, e o Secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno. Os mercados - que haviam celebrado a derrota eleitoral do governo na semana passada, nesta quarta "enterraram suas ilusões pós-eleitorais", afirmaram os analistas.

 

A opinião pública tampouco aprovou as trocas de ministros. Uma pesquisa realizada pelo jornal "Clarín" indicou que 78,3% dos entrevistados desaprovam as mudanças. Francisco De Narváez, líder da coalizão União-PRO, de oposição, afirmou que é imperativa a saída do polêmico Guillermo Moreno, autor da manipulação dos índices de inflação. Segundo ele, também é imprescindível que o ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) afaste-se das decisões do governo de sua esposa.

 

Analistas e a oposição encararam a troca de ministros como um mero "remanejamento" dos homens de confiança de Kirchner. Isso indica que o ex-presidente, apesar da derrota nas urnas, continua mandando no governo.

 

FIÉIS KIRCHNERISTAS

 

Um dos empossados é Amado Boudou, fiel seguidor do "modelo kirchnerista", que tornou-se o terceiro ministro da Economia desde a posse de Cristina há um ano e meio. Boudou comandou a polêmica estatização dos Fundos de Pensões no ano passado, embora tenha um passado neoliberal.

 

Entre seus principais desafios estão o conflito com o setor ruralista (que nesta quarta voltou a exigir ao governo a redução dos impostos sobre as exportações agrícolas), a contenção da inflação, a recuperação de credibilidade das estatísticas econômicas (manipuladas pelo governo), a falta de créditos internacionais para o país, além de medidas para driblar a recessão.

 

De quebra, terá a árdua tarefa de recuperar a abalada confiança dos argentinos, que nos últimos doze meses protagonizaram uma fuga de divisas de US$ 23 bilhões. Outra figura controvertida é o novo ministro da Justiça, Julio Alak, que pilotou o processo de reestatização da Aerolíneas Argentinas.

 

A reestatização continuará sob a direção de Mariano Recalde, filho de Héctor Recalde, um dos líderes da Confederação Geral do Trabalho (CGT). Essa designação reforça o poder do caminhoneiro Hugo Moyano, secretário-geral da central sindical, considerado "truculento" pela oposição.

 

O novo chefe do gabinete, Aníbal Fernández, dono de língua viperina e hábil estratégia, acompanha os Kirchners há seis anos. Ele é considerado a "infantaria" do kirchnerismo. Isto é, o homem que enfrentará a dura batalha de proteger os restos cada vez menores do poder do casal presidencial.

 

BRASIL

 

As mudanças no gabinete não implicarão em alterações na relação com o Brasil. A controvertida política comercial, foco das tensões bilaterais desde o segundo semestre do ano passado, quando o governo argentino iniciou uma série de medidas protecionistas contra produtos Made in Brazil, é comandada pela ministra do Desenvolvimento, Débora Giorgi.

 

Denominada de "Senhora Protecionismo", Giorgi, que possui excelente relação com a presidente, permanece no cargo. Giorgi tem posições "duras" com o Brasil desde 1999, época em que comandava a Secretaria de Indústria e Comércio, durante o governo de Fernando De la Rúa.

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