Apesar de fracasso, diálogo na Bolívia foi positivo, diz Unasul

O diálogo político realizado na Bolívia não pode ser considerado um fracasso já que criou um clima saudável de convivência democrática naquele país, afirmou na segunda-feira o enviado da União de Nações Sul-Americana (Unasul). As conversas entre o governo boliviano e a oposição sobre a convocação de um referendo para aprovar uma nova Constituição chegaram ao fim no domingo sem que os principais adversários do presidente Evo Morales apoiassem o plano. No entanto, houve avanços importantes quanto à demanda de departamentos opositores sobre terem maior autonomia em relação ao governo central. O ex-chanceler chileno Juan Gabriel Valdés, observador da Unasul nas negociações, afirmou que, apesar de ter sido desejável a assinatura de um pacto final por todas as partes, era evidente o clima de aproximação. "No diálogo, não vimos um fracasso. O que vimos é um avanço importante no que diz respeito à aproximação das posições", disse Valdés a repórteres, anunciando que esse será o ponto central de seu próximo relatório a ser enviado para a Unasul. O acordo proposto por Morales, um político de esquerda, recebeu o respaldo dos cinco governadores da situação e da Federação de Municípios -- os quatro governadores da oposição rejeitaram-no. O enviado ressaltou que, logo depois de os violentos protestos antigoverno do mês passado haverem deixado cerca de 20 mortos, "houve um esforço genuíno de diálogo, uma mudança do panorama político do país" nas negociações realizadas durante três semanas na cidade de Cochabamba (região central). "Hoje em dia vemos na Bolívia um respeito total pela ordem constitucional, um respeito pelo governo democrático comandado pelo presidente Evo Morales. Observamos um diálogo duro, algumas vezes difícil, mas respeitoso. E estamos satisfeitos por termos podido contribuir com esse clima", acrescentou. O governo de Morales disse que, apesar da falta de um acordo político total, incorporará no projeto da nova Constituição do país o capítulo sobre a autonomia dos departamentos, municípios e áreas indígenas resultante dos acordos firmados com delegados da oposição no início do processo de diálogo. Segundo o ministro boliviano de Desenvolvimento Agrícola, Carlos Romero, o governo espera que essa alteração facilite o fechamento de um pacto político no Congresso para aprovar a convocação do referendo sobre a nova Carta Magna, que se realizaria no primeiro trimestre de 2009. Na opinião de Valdés, os observadores estrangeiros poderiam dar "testemunho e aval sobre todos os avanços realizados", avanços esses que descreveu como "muito importantes". "Para muitos de nós representantes e embaixadores que estivemos nos diálogos anteriores, aqui se viram posturas impossíveis de serem imaginadas meses atrás e isso deve ser valorizado pela sociedade boliviana", disse o ex-chanceler chileno. Políticos afirmaram que o vice-presidente do país, Alvaro García, deve convocar nas próximas horas os líderes do Poder Legislativo a fim de selar os acordos sobre o referendo. Caso ocorra, esse pleito poderia colocar em vigor uma nova Constituição da qual fazem parte mais autonomia para os Departamentos, mais poder para a população de origem indígena (majoritária) e uma maior participação do Estado na economia. (Por Carlos Alberto Quiroga)

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