Após vetar Cristina, vice é recebido como herói em terra natal

Cobos é saudado em trajeto de mil quilômetros; camisetas com frases do discurso são vendidas na internet

Agências internacionais,

18 de julho de 2008 | 12h19

O vice-presidente argentino, Julio Cobos, foi recebido como herói em sua terra natal, a província de Mendoza, onde reiterou que não pensa em renunciar, segundo destacou a imprensa local nesta sexta-feira, 18. Segundo o jornal argentino Clarín, Cobos afirmou ainda que a presidente Cristina Kirchner não se referia à ele quando falou em "deslealdade".  Veja também:Ouça relato de Ariel Palacios sobre a crise  Entenda a origem da crise entre ruralistas e governo Cristina fala em traição e se reúne com bancada governistaSenado da Argentina veta projeto de impostos sobre grãosRebeldia converte vice em estrela política Desafio de governo será adotar política de negociação   Após vetar a proposta de Cristina de aumentar o imposto sobre as exportações de grãos, o vice optou por viajar de carro até Mendoza (ele preferiu não viajar nos aviões da frota presidencial, como teria sido costumeiro). Nos vilarejos no meio do caminho de cerca de mil quilômetros, Cobos foi ovacionado pela população.  Segundo a imprensa, ele foi recebido por cerca de três mil pessoas em sua casa. "Julio presidente", cantavam os manifestantes ao receber o vice, que ao deixar o veículo afirmou aos jornalistas que não pensa em ser candidato em 2011. Na internet, já são vendidas por US$ 10 camisetas com as legendas "A história me julgará" e "meu voto não é positivo", frases que Cobos usou em seu dramático discurso no Senado na madrugada de quinta-feira. Jovens peronistas exigem a renúncia do vice-presidente, representante da aliança formada ainda no governo de Néstor Kirchner (2003-2007). "Não vou renunciar e ninguém poderá pedir isso", disse Cobos em uma entrevista publicada nesta sexta no jornal La Nación, em que justificou que votou de acordo com os seus "princípios e convicções" ao acabar com o empate no Senado sobre o projeto governamental. Cristina convocou uma reunião nesta sexta-feira com o ministro da Economia, Carlos Fernández, e senadores da aliança governista. Segundo a imprensa local, o governo analisará os seus próximos passos. A última chance de aprovar o polêmico projeto desapareceu no momento em que o vice-presidente Julio Cobos, que acumula o cargo de presidente do Senado, emitiu seu voto de minerva para desempatar a votação dos senadores - 36 haviam votado pela aprovação do projeto e 36 pela rejeição. Após a derrota, Cristina apareceu em público pela primeira vez na noite de quinta. No discurso, evitou referir-se diretamente à votação no Senado, mas lançou indiretas a Cobos. "Nos vários anos de atividade política, algumas pessoas de outros partidos me decepcionaram; e também alguns de nosso partido", declarou.  Em seu esperado primeiro discurso após o veto. Cristina não ocultou seu mal-estar. "Quero agradecer a presença de todos aqui esta noite para nos reencontrarmos, como sempre temos feito, olharmos nos olhos um dos outros e saber que nunca nos traímos", disse a presidente argentina para seus partidários na inauguração de um terminal aéreo na província de Chaco. Ao mencionar o conflito, Cristina disse que "nunca" se traiu e que escolheu um "caminho irrenunciável: representar os interesses dos menos favorecidos para construir uma Argentina com mais inclusão social e menos pobreza". Embora o projeto de lei tenha sido rejeitado, o governo ainda precisa revogar um decreto, assinado em março, que estabeleceu os aumentos e provocou a rebelião fiscal rural. O tarifaço foi o pivô do conflito que o governo manteve com o setor ruralista durante 128 dias. A crise provocou a paralisação da atividade econômica e a disparada da inflação.

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